Eu lembro de ter lido há tempos uma cena de romance que contrasta uma interpretação religiosa com uma interpretação científica do mundo, e o faz como uma sátira das sociedades humanas.
A cena é a seguinte: cidadãos de uma cidade costeira tentam desvendar a estranha ocorrência de uma baleia que sobe em cima de um rochedo e permanece ali, mirando o céu. Ela não parece querer passar para o outro lado, ou entrar em terra firme: ela simplesmente para na base do rochedo, com o corpo inteiro para fora da água, e permanece, remexendo-se um pouco e emitindo ruídos baixos. Vendo isso, um padre local improvisa um sermão às pressas e tece uma longa interpretação de que também as baleias emergem e permanecem próximas a rochas em adoração divina: toda a natureza contemplaria a glória divina a sua própria maneira, e, para aquela cidade costeira que era um antro de putaria e bebedeira e pirataria, precisava uma baleia dar mostras do verdadeiro objetivo da criação de Deus: contemplá-lo e adorá-lo. O que começou como um experimento de interpretação alegórica dos fenômenos do mundo, tão afim à tradição figuralista sobre a qual falei no episódio anterior inteiro, acabou como um puxão de orelha do padre para seus ouvintes.
Uma personagem de inclinações científicas ouve a respeito do conteúdo daquele sermão e ri da pretensão do padre de querer falar sobre o comportamento das baleias. Como navegante experimentado, ele sabia que o casco das baleias é alvo de infestação de diferentes parasitas. Cracas costumam pegar carona ali para se alimentar de plâncton, e por vezes a quantidade de cracas fixadas numa baleia é tão grande, que aumentam seu peso e deixam a baleia mais lenta, tendo que gastar mais energia para nadar. Outros parasitas como piolhos-de-baleia se fixam em lesões na sua pele, pregas genitais, narinas e até mesmo ao redor dos olhos, e vivem da pele descamada do bicho. Elas geralmente são prejudicais.
Baleias, não tendo braços, se arrastam no que podem. Não é incomum a elas se livrarem de quilos e mais quilos de cracas e piolhos subindo em rochedo. Assim, o padre, que deve saber muito de teologia mas nada de baleias, ignorou uma explicação muito mais simples e comprovada desse comportamento: baleias sobem para se coçar em rochedos para se aliviar de parasitas e incrustações --- algumas encalham em praias justamente por isso.
Nosso assunto neste momento da série é como a tradição patrística, responsável pela organização da teologia cristã até a Idade Média, transformou o figuralismo e a alegoria em métodos vigentes de interpretação da realidade. Para ela, há um subtexto espiritual onde mora a verdade do mundo (ele está codificado na Bíblia e, por ser um código difícil de discernir, você precisa de padres, colegiados de bispos e o papa para interpretá-lo para as congregações de fiéis. Em igrejas protestantes, você precisa de pastores e pastoras.) Foi com esse argumento que a Igreja cristã criou um novo mundo na Idade Média -- argumentei como a gente entende a passagem da Antiguidade Tardia para a Idade Média europeia também como uma mudança de paradigmas interpretativos do mundo, do racionalismo filosófico para o figuralismo cristão. É claro que existe uma porção de fatores políticos, econômicos e tal envolvidos no início da Idade Média, eu não ignoro eles, mas mantenhamos o foco. O assunto já é suficientemente complicado.
Daqui para a frente eu continuo a falar de Ambrósio de Milão como teórico, e sua noção de mysterium ou sacramento. Ele foi o teólogo que identifiquei como originador de uma tendência figuralista, e cuja forma de pensar foi espalhada por Santo Agostinho, e de Agostinho, para todo o mundo católico e, em seguida, para o protestante. Lutero era um monge agostiniano, e suas raízes ficaram na doutrina cristã da Era Moderna.
O próximo episódio vai contrastar o figuralismo de Ambrósio com um resgate da metafísica da natureza neoplatônica no período do Iluminismo.
Com isso estará travada a batalha misticismo cristão contra ateísmo naturalista, que acho que define bem duas alas do debate em tempos modernos. O Ocidente está dividido entre mais posturas existenciais, mas essas duas parecem ser as que mais aparecem em debates na mídia e no dia-a-dia das pessoas. Com esse embate final, que foi travado só no século 18, a gente pode fechar esta série e chegar a algumas conclusões mais palpáveis sobre o que é e como se configura a espiritualidade ocidental. Me deem 30 minutos para cada episódio.
Existe um texto catequético chamado Explicação do símbolo aos iniciandos, que antes era mantido como um manual de acesso restrito dentro de igrejas mas hoje você pode comprar num volume da Paulus Editora. Ele começa entregando as cartas: a doutrina daquela religião não é fácil de entrar na cabeça das pessoas -- seja porque é complexa, ou difusa, ou porque existe um problema educacional no Império Romano do século IV. Por isso os artigos da fé cristã (cada parte constituinte dela) devem ser resumidos e mastigados para as pessoas. "A brevidade é necessária, para que ela seja sempre mantida na memória" (edição da série Patrística, p. 3).1 Tendo pequenos resumos da doutrina na memória, será possível que congregações deste cristianismo em formação se protejam contra heresias, diz Ambrósio: ele estava buscando uma unificação doutrinária de uma religião que já começou fragmentada, e precisou negociar, internamente, qual seria sua doutrina inicial.
Esses símbolos são o que hoje a gente chama de sacramentos: são gestos e motivos da iconografia católica que perfazem a vida de um fiel. O ato de se persignar (fazer o sinal da cruz, de traçar três pequenas cruzes com o polegar da mão direita: uma na testa, outra na boca e a terceira no peito.) Ambrósio ressaltou que persignar devia se tornar um hábito de cristãos para que se lembrassem sempre da realidade da Trindade eterna. Um monte de crianças vai fazer isso sem nem saber o que significa, mas sempre que questionarem seus pais e mestres, ou sempre que pessoas de fora perguntarem o significado daquilo, alguém na comunidade saberá lembrar: o significado desse símbolo (ou "sacramento") é tal e tal e tal. O símbolo para aquela nova comunidade religiosa, portanto, é um instrumento pedagógico: uma forma de manter a tradição viva, e renovar sempre os ensinamentos sem que as pessoas precisem se educar ou ler suas bíblias, pois Ambrósio sabia: elas não vão fazer isso. Esquece. A atitude de toda a patrística é paternalista, com o perdão da expressão: trata-se de tutores das massas tratando-as como crianças que precisam ser ensinadas, caso contrário cederão a religiões ou tendências pagãs mais tentadoras do que a vida de ascetismo e sacrifício que é o cristianismo.
A liturgia também é concebida como mistério, um legado direto do pensamento ambrosiano. A constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II, inicia afirmando que a liturgia é "o mistério de Cristo presente em sua Igreja", fraseologia que reflete a visão de que a liturgia não é mera comemoração, mas a atualização do único Mistério salvífico de Cristo. Ao tomar o vinho da ceia e comer a hóstia, você está atualizando o sacrifício de Cristo na cruz -- bebendo seu sangue e comendo de sua carne. Romanos do século IV que ouviam essa ideia se escandalizavam: há relatos engraçados de romanos que achavam que rituais cristãos envolviam canibalismo e rituais macabros, e isso é resultado de um embate entre duas concepções de realidade muito distintas. Eu arrisco dizer, que esse embate nunca acabou: o cristianismo é antiintuitivo, é uma reação contra a hermenêutica racionalista que deu origem ao que a gente chama de filosofia no Ocidente. Esse embate insolúvel é um elemento central da espiritualidade ocidental (e já volto nesse tópico).
Pois bem: todos os vários sacramentos da tão ritualística religião católica partem do princípio ambrosiano. Por isso o homem é tão importante.
E essa noção de "mistério"/sacramento tem seus problemas conceituais. A princípio, ela simboliza uma suposta verdade eterna e estabelecida desde o início da criação de todas as cosias -- seria um gesto ou símbolo que clérigos conseguiram decifrar em função da sua proximidade com o divino. Mas eis que nosso amigo diz (p. 28): "Quero avisá-los bem do seguinte: o símbolo não deve ser escrito. Deveis repeti-lo, mas ninguém o escreva. Por que motivo? Foi-nos transmitido que não deveria ser escrito. O que fazer então? Retê-lo de cor."
Aqui Ambrósio está falando com catecúmenos -- pessoas já iniciadas na fé católica, em processo de instrução e preparação para receber o Batismo e outros sacramentos de iniciação cristã. E o que ele está pedindo, em pleno século IV, não foi cumprido pela própria instituição católica: posteriormente o Vaticano produziu uma porção de documentos regulamentando e explicando o significado místico de cada parte de seu rito: a persignação mesmo está bem descrita no Missal Romano. Mas naquele contexto em que o catolicismo ainda não era religião oficial, e estava em constante luta contra o arianismo, novacionismo e tal, Ambrósio insiste: "nossa congregação precisa de uma vantagem estratégica. Nós seremos mais rigorosos com nossa doutrina do que nossos competidores, e vamos dar um jeito de fazer cada pessoa internalizar um sistema de teologia complexo. Desde os iletrados simplórios, até as crianças inocentes, até os doutores de teologia, todos deverão espelhá-la em seus gestos cotidianos. Todos refletirão, de sua própria maneira, a unidade de uma fé unida e universal, que eu chamo de católica.
E isso explica muito religião e rituais estão geralmente interligados no mundo pré-moderno. É possível, hoje, você ser uma pessoa espiritual sem fazer parte de uma religião institucionalizada -- acho que é o caminho que muita gente hoje busca, após se frustrarem com igrejas e viharas e templos e mesquitas de seja lá qual foi a religião. O tipo social do "turista de fés" (aquele camarada que troca de religião como quem troca de cuecas) é um produto de uma geração antes da minha, a Geração X (nascida entre 1965-1980), e acho que vários dos meus contemporâneos Millenials encontraram um caminho de dar forma à própria espiritualidade de forma autônoma, sem ligação com templos: ou via contemplação da natureza, ou via experimentações com seus corpos e mentes, ou fazendo uma salada com rituais de outras religiões, ou aceitando que todas as religiões mundiais são válidas pois estão adorando o mesmo princípio divino (que é um princípio 100% neoplatônico). Eu tenho a convicção de que o neoplatonismo ainda fundamenta boa parte da espiritualidade contemporânea, mesmo que as pessoas não leiam seus teóricos basilares como Plotino, Porfírio, Iâmblico e Proclo. Mas eu não tenho como provar isso; é uma sugestão.
Quem segue esta série viu que esse fenômeno não é nem um pouco moderno: o Império Romano até o século III tinha justamente essa qualidade de um shopping center das fés, e o resultado disso é: cada profissão de fé, quando individualizada em crenças pessoais e intransferíveis, morre em seu criador. Cada pessoa terá sua própria religião interna e não codificada assim. Ambrósio queria o exato oposto: uma unificação de todo o Império Romano sob o signo de uma religião messiânica, de forma a prepara-lo para o Fim dos Tempos, e para tal era preciso de um clero cuidando de tudo. Daqui vem umas implicações que permitem a gente entender a lógica católica melhor:
Leio o tópico 7 de Explicação do símbolo:
"Eu disse que os apóstolos compuseram o Símbolo […]"
(note, não foi Cristo, não foram os autores do Velho Testamento: foi a geração de autores romanos que veio DEPOIS e testemunhou a vida do suposto Messias, antes de os gentios saberem que ele existiu, viveu e fez o que fez).
"Com efeito, tens no livro do Apocalipse de João […]: 'Se alguém acrescentar ou tirar alguma coisa, sofrerá o julgamento e o castigo' (Ap. 22:18-19). Se nada pode ser tirado ou acrescentado aos escritos de um só apóstolo, como poderíamos mutilar o símbolo que recebemos como tendo sido composto e transmitido pelos apóstolos? Nada devemos tirar e nada acrescentar. Este é o símbolo conservado pela Igreja romana, […]" (ibidem, p. 27-28)
Um trecho como este me confunde. Confunde todo mundo que nasceu fora dessa religião. Se há uma coisa que o catolicismo fez a partir daí foi alterar a doutrina cristã; acrescentar a ela, torcê-la, justificar ações pontuais de Papas via argumentos teológicos, às vezes contra a própria moral professada dos cristãos, com base na conveniência. E o figuralismo permitiu isso acontecer, caso você esteja dentro desse sistema e sacrifica seu senso comum por uma axiologia ensinada: pode ser a primeira vez que você está vindo com a ideia de mandar meninas órfãs para conventos de freiras, digamos; força-las a sacrificar suas vidas sociais e tirar a opção de serem mães. A criação de conventos de freiras não é requerida no livro sagrado cristão, é uma invenção histórica dos católicos. Mas eles vão achar algum versículo do Velho ou Novo Testamento em que se elogia a castidade, ou usar a noção da Concepção Imaculada de Ana e da virgem Maria para afirmar: 'é parte da doutrina santa, que o Divino comunica à intuição de seu clero, que haja mulheres dedicadas de corpo e alma à causa da igreja. O sacrifício que elas farão de sua sexualidade e sociabilidade é um símbolo, um sacramento, vivo do modelo feminino máximo que é Maria, mãe de Jesus'. Eis a 'lógica' católica: é o rechaço da inteligência intuída (do que os platônicos chamavam de πρόνοια) em nome do misticismo. Ela não justifica porque meninas órfãs, que na maioria das vezes sequer têm autonomia para optar por aquela vida, são doutrinadas para vivarem freiras. A seriedade dessa revelação que o clérigo, como autoridade que você não pode contestar, impede que demais perguntas sejam feitas.
Com esse papo de conventos de freiras eu estou dando um exemplo só, sem ignorar que algumas freiras optam deliberadamente por aquela vida de claustro e devoção. E considere que os institutos da fé católica são qualquer coisa que a Igreja, historicamente, decidiu fazer após concílios realizados entre quatro paredes, e que alterou os rumos do mundo.
O figuralismo na prática, funcionava assim no século IV: leio de De Sacramentis de Ambrósio, trechos do Livro I parte 23 e Livro II parte 1 (p. 37-40 na minha edição):
"No dilúvio também já houve uma figura [pictura] do batismo e certamente os mistérios dos judeus [do Velho Testamento] ainda não existiam."
[Notem: ainda não existiam, e ele está falando do mito do dilúvio. Deus encheu o mundo de água para destruir a humanidade, deixando só um punhado de pessoas lideradas por Noé vivas, como quem dá um RESET no Planeta Terra. Para os hebreus, esse era um evento isolado. Para os católicos, Deus teria revelado o sentido figurativo desse evento com o batismo de Jesus, como se tivesse nos contando uma história e explicasse o sentido sacramental da mitologia hebraica].
"O que é o dilúvio, senão o meio pelo qual o justo é preservado para semear a justiça e fazer morrer o pecado? […] E por isso naquele dilúvio pereceu toda a corrupção da carne, e somente a raça e o modelo do justo permaneceram. O batismo não é esse dilúvio onde todos os pecados são desfeitos e onde somente são ressuscitados o espírito e a graça do justo?"
E assim ele explica o sacramento do batismo em igrejas: uma pessoa que se converte à profissão de fé cristã simboliza a própria morte para o mundo sendo deitada na água por um clérigo, e volta à superfície recauchutada.
Isso é hermenêutica freestyle; Ambrósio interpreta textos sem se pautar em referências da retórica ou lógica aristotélica, que já estavam disponíveis na época e foram parte da sua educação como homem da alta classe romana. Cristianismo foi uma revolta contra os referenciais de mundo clássicos, como vimos no último episódio, e consequentemente declarou sua vitória contra o racionalismo e cientificismo virando-os de ponta cabeça. Afirmando, via dogma, que tinha encontrado uma verdade superior, eterna, e reservada para iniciados. Como ser um iniciado? Ajoelhe-se perante a autoridade do clero e ouça como você vai reinterpretar cada coisa da sua vida a partir de parábolas e historietas de livros ancestrais.
Quem deteria o poder de interpretar e divulgar as interpretações dessa realidade mística mais profunda? Também esse clero.
Na prática, isso resultou em cismas dentro da igreja: o clero se dividiu em 2, que se dividiu em 4, e por aí vai. Por isso que hoje temos Anabatistas, Pentecostais, Adventistas, Católicos, Ortodoxos, Anglicanos, Luteranos, Batistas, Metodistas, Reformados, Congregacionais, Restauracionistas, Testemunhas de Jeová, Mórmons, Igreja do Nazareno, Exército da Salvação, Quakers, etc, e dentro de cada um desses grupos, uma porção de rixas internas e divisões ideológicas. Embora o cristianismo tenha conquistado uma unidade escriturística no século IV (um só livro-base mais ou menos homogêneo, que expliquei no episódio sobre Jerônimo de Estrídon), seu figuralismo tornou uma união doutrinária almejada pelos católicos impossível. Não tinha como ser diferente. A base do figuralismo é frágil, é irracional, depende de feeling e intuição, não de um princípio rígido.
O que isso significa na prática?
Pegue qualquer discussão mais polêmica sobre eventos políticos: nacionalismo, por exemplo, e vai ter pastores/padres, de um lado, argumentando a favor do universalismo e um mundo sem barreiras, e pastores/padres, do outro lado, com suas próprias razões para defender ultranacionalismo, deportação em massa de imigrantes, e mescla de religião na política. Cada lado julga estar sendo inspirado pela razão divina; vão usar tais e tais trechos do mesmo livro sagrado para justificar sua posição (fora de contexto, pois são figuralistas). A cisão das igrejas, o descrédito que elas ganharam para pessoas alfabetizadas no Mundo Moderno, não é fruto de uma ameaça do secularismo ou forças satânicas ou miscigenação ou o escambau: é resultado de uma cisão constitutiva da religião cristã, e da falta de referenciais sólidos para guiá-la. O cristianismo padece da inconsistência de seus métodos, e a patifaria de parte de seus líderes não ajuda muito.
Então, é possível tem um líder como Martin Luther King Jr., por quem eu nutro o máximo respeito, e um imbecil como Joshua Haymes, com quem eu queria só 5 minutinhos de porrada. Compare o que cada um tem a dizer sobre a escravidão nos EUA:
Martin Luther King Jr. - The American Dream (July 4th, 1965) https://www.youtube.com/watch?v=lIp0NmpxogE [0:41-0:59, 4:04-4:23]
RWW News: Christian Nationalist Commentator Joshua Haymes Says 'Slavery Is Not Inherently Evil' https://www.youtube.com/watch?v=8_NWdgoogvE [0:18-0:37, 1:40-2:00, 2:41-2:48]
É a mesma religião? É. Sua ideologia é a mesma? O exato oposto.
A perspectiva historiográfica é superior à teológica para explicar o mundo por isso: a gente entende Martin Luther King como produto de uma luta histórica por direitos de cidadania de minorias nos EUA, da inatividade do governo e sociedade americana em reintegrar ex-escravizados no período da Reconstrução e tal, e entende esse mongolão Joshua Haymes como mais um americano chucro, um racista vulgar. Um privilegiado que, com barba na cara, não teve vergonha na cara de largar as saias da mãe e abandonar os preconceitos herdados da sua família.
A perspectiva figuralista justificará os dois. Um usou os Evangelhos e a mensagem universalista de Jesus Cristo para argumentar, o outro usou Êxodo 21, Levítico 25. Um usou 1 Timóteo 1:10 (condenando sequestro de outros seres humanos), o outro usou 1 Pedro 2:18 (pedindo para que servos sejam submisso a seus mestres, mesmo que sejam psicopatas).
O figuralismo e a multiplicidade desconcertante de ideias na Bíblia Sagrada prolifera múltiplas atitudes frente ao simbolismo que supostamente emana das coisas que povoam o mundo. Mas a atitude que cada líder religioso terá frente aos símbolos pode ser distinta -- e eu tento a medir se ele é um canalha ou uma pessoa séria a partir disso.
A atitude de MLK é exemplar aqui: como pastor e líder comunitário ele entendia a fragilidade de você se assumir um portador de uma verdade divina. E ele colocava sua autoridade em xeque a todo momento, sabendo do risco inerente de afirmar uma verdade pessoal, travestindo-a de mandamento dos céus. Pastores experientes caem nesse risco a todo momento, e antes de encherem a boca para soltar barbaridades deveriam pensar um tantinho mais do que fazem. Qual era a garantia, para King, de que estava no caminho central? A confirmação de sua comunidade de que estava lutando em prol de uma verdade moral. Deixo um trecho de uma entrevista de 1961 que ele deu para a BBC:
Martin Luther King Jr on overcoming fear | BBC Global (1961) https://www.youtube.com/watch?v=vdE4wHX_5fI (0:09-0:38, 1:00-1:39)
Mas vá lá, estamos no século IV: Não tinha como Ambrósio saber de todos esses desdobramentos, e não estou questionando a moral de um homem que morreu há 1600 anos. Mas essa foi uma consequência inevitável dessa revolução espiritual do Império Romano tardio: o figuralismo gerou monstros. Essa é a dinâmica que estou tentando mostrar: o poder religioso não está acima da dinâmica histórica. O subtexto místico que descreve a história do mundo e a história individual dos homens a partir de uma narrativa de forças espirituais é só isso: um subtexto místico; lentes que pessoas doutrinadas colocam na frente de seus olhos para dar sentido à rotina entediante e árida que levam em suas vidas cotidianas. No final das contas, a rotina entediante e árida vence. Os jogos de poder entre dirigentes, os conflitos sociais e os ódios pessoais acabam alterando as práticas religiosas, e as portas que Ambrósio e Agostinho abriram para o figuralismo -- para qualquer evento do mundo empírico poder ser interpretado misticamente e justificar os desvarios dos clérigos -- isso é parte da história da nossa miséria. Isso amordaçou a racionalidade humana por alguns séculos, e continua fazendo-o.
Referências
- Ambrósio de Milão. Explicação do símbolo -- Sobre os sacramentos -- Sobre os mistérios -- Sobre a penitência. São Paulo: Paulus, 2010.
- Martin Luther King Jr. A Testament of Hope: The Essential Writings and Speeches. San Francisco: HarperOne, 1990.
- Neil B. McLynn. Ambrose of Milan. Church and Court in a Christian Capital. Berkeley: University of California Press, 1994.
- Olúfẹ́mi O. Táíwò. "Empire of Vice". Boston Review. January 8, 2026. Acesso em: https://www.bostonreview.net/articles/empire-of-vice/
1 Ambrósio de Milão. Explicação do símbolo -- Sobre os sacramentos -- Sobre os mistérios -- Sobre a penitência. São Paulo: Paulus, 2010.