O SÉCULO IV E A TRANSFORMAÇÃO DO IMPÉRIO ROMANO

Diocleciano, Constantino e o declínio do politeísmo romano


24/12/2025

Este episódio foi gravado na véspera de Natal e será mais curto; ainda preciso fornecer uma contextualização do que estava acontecendo na alta política do Império Romano entre o momento em que o imperador Diocleciano organizou perseguições sistemáticas contra cristãos e o momento em que outro imperador, Constantino, descriminalizou a prática de fés diversas e se converteu, ele mesmo, ao cristianismo. O que esqueci de contar é que Constantino veio logo depois de Diocleciano, e os dois homens não poderiam ser mais diferentes quando o assunto é religião. Mesmo assim, os dois foram responsáveis por uma militarização radical da sociedade romana, pelo enfraquecimento das elites locais e, de modo geral, foram vistos como administradores públicos afins; regentes que preservaram um império em frangalhos a sua própria maneira, que sobrevivera à crise do século 3 a duras penas.

Diocleciano reestruturou toda a sociedade e economia romana, tentou reunificar o império em torno de uma só fé, o politeísmo --- fracassou em certas coisas, obteve êxito em outras. Constantino deu continuidade a diversas das políticas públicas de seu antecessor, embora, no campo da religião, tenha seguido o caminho oposto: ao final de seu reinado, cerca de 50% dos cidadãos romanos eram cristãos, uma onda de conversões nunca antes vista na história. E dali a poucas décadas, Roma estava sendo saqueada --- o Império Romano cristão almejado por Constantino e pelos Pais da Igreja sequer durou duzentos anos, e foi feita toda sorte de julgamentos que aliava a decadência de Roma à ascensão da fé cristã. Esses argumentos começam com a ideia de que Roma adotou um culto estranho em troca da adoração dos deuses tradicionais, sacrificando assim a virtude cívica que dava um senso de pertencimento ao império, àquela civilização. Esse é Zósimo, o historiador bizantino escrevendo no século VI. Uma vez que romanos e romanas de diversas castas passaram a perseguir a purificação ascética de suas almas e se entregaram ao pacifismo ensinado nas igrejas, abriu-se espaço para invasões bárbaras --- simbolicamente, os deuses ancestrais de Roma haviam-na abandonado, porque os romanos os abandonaram.

Edward Gibbon, um historiador iluminista mais recente e cético a existência dos deuses do Olimpo, investiga as causas institucionais para a queda de Roma: o século 4 romano viu desvio de fundos públicos para a construção de duas basílicas, a nomeação de favoritos cristãos de Constantino a altos cargos --- nomeações feitas pela profissão de fé dessas pessoas, não por sua competência ---, além de um desperdício imenso de energia do imperador tentando mediar discordâncias doutrinárias entre católicos e arianos, em vez de fazer seu serviço de imperator: proteger as fronteiras de Roma contra povos inimigos. O resultado foi: Roma é invadida por hordas de visigodos a partir de 410. Ela é saqueada repetidamente, de forma que é incorreto falarmos da invasão do Império por bárbaros; o Império Romano não cai, ele agoniza, aos poucos.

Essa ligação entre expansão da cristandade e queda da cidade eterna é justa? Não sei ainda, mas antes de tentar responder à pergunta precisamos de contexto --- será a ocasião para entendermos por que o politeísmo pagão tratado no último episódio entrou em declínio inevitável a partir do século IV.

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A Crise do Século 3

O 3º século da era cristã viu a primeira grande crise do Império Romano, após um período de "bons imperadores" e de expansão ininterrupta de suas fronteiras até então. O Império não era exatamente uma maravilha em termos de eficiência, mas tinha sistemas de transporte e organização social avanadíssimos para a época. Uma coisa que Roma dividia com a China imperial foi um sistema de transporte rápido chamado, em latim, de cursus publicus: ele operava com uma rede planejada de estações de revezamento ao longo da extensa malha de estradas romanas. Em estradas imperiais, a cada 20 ou 30km havia estações de troca de cavalo, em que um mensageiro podia deixar seu animal cansado e pegar um novo, contanto que mostrasse ser um mensageiro oficial, um tabellarius, ou sua versão expressa e mais cara, um stratorus. Os negócios do Império não podiam parar, então o trabalho de um mensageiro devia ser livre de impedimentos. A expressão "todas as ruas levam a Roma" vem de uma qualidade única daquele império: ele oferecia uma rede imensa entre províncias preparada para movimentação de tropas, sobre as quais se construíram muitas estradas europeias modernas (Roma era um império que funcionava à base de guerra e conquistas, afinal). Ele dispunha de mensageiros que serviriam de telefone sem fio entre regentes e seus exércitos.

Esses mensageiros precisavam descansar e, em situações de emergência, podiam fazê-lo após percorrer até 200km --- algo exaustivo e doloroso se você o faz no lombo de um cavalo em alta velocidade. Após um dia de trabalho, esses mensageiros podiam se hospedar nas mansiones --- estações com alimentação farta, banhos e uma cama para o próximo dia. A cidade inglesa de Bath, por exemplo, era um banho romano para oficiais cansados do exército e mensageiros; foi uma cidade construída em torno de um posto de comunicação e um spa durante o século VI.

Aquele era um sistema caro, e os locais das províncias detestavam a presença de um tabellarius em sua região: eles tinham que bancar parte dos custos desse sistema extremamente dispendioso, embora necessário para manter um dos maiores impérios do mundo funcionando.

Mesmo assim, as distâncias do Império Romano do século 3 já eram grandes demais. Ineficiência e enfraquecimento do poder do Estado tornaram-se um problema sério a partir dali. Roma começou como uma só cidade-Estado; o fato de, dali a séculos, o Império estar cobrindo pedaços substanciais de três continentes exigia a manutenção de exércitos em diversas províncias. Soldados não produzem nada para a sociedade, e custam dinheiro: pois bem, no 3º século o exército descobriu que podia fazer e desfazer administrações imperiais. Dali, até vir nossa personagem principal, Diocleciano, todos os imperadores romanos menos um morrem violentamente em função de motins ou guerras internas. Pegue uma lista da sucessão imperial a partir do ano 238, e você vai ver: Gordiano I durou 22 dias no poder, antes de perecer em um suicídio meio questionável. Daí vem Gordiano II, dura 22 dias também até morrer em uma batalha em Cartago. Pupieno, dura 99 dias antes de ser assassinado pela guarda pretoriana. E por aí vai... poucas profissões foram tão insalubres quanto ser imperador romano naquele século.

Não só lidar com exércitos revoltosos era um problema: havia uma dificuldade de manter a taxa populacional italiana equilibrada; uma mescla de pestes, guerras, natalidade instável e mortalidade infantil extrema fez com que Roma ficasse cada vez menos romana. Culturalmente, esse fenômeno gerou certa paranoia frente a estrangeiros um tanto parecida com o que está rolando na Europa hoje: aquele papo de que a Europa vai virar islâmica e de pele escura em breve, porque uma mescla de ideologias antinatalistas, liberalismo cultural e conspiração trans está minando a proliferação de cristãos europeios. Isso é papo de conspiracionista desmiolado, e Roma viveu um fenômeno parecido. A diferença é que ali havia um fator empírico operando em favor da ideia da ameaça ao sangue romano: a mortalidade infantil. "Em Roma, uma mulher pode esperar engravidar mais de uma dúzia de vezes na sua vida, e mesmo isso não é suficiente para manter a população estável. Isto acontece em parte porque muitas mulheres --- como a única filha de Júlio César --- morrem durante o primeiro parto. Como resultado, a população de Roma não para de diminuir. Só a imigração impede que a cidade acaba por se tornar uma cidade fantasma --- com mães jovens e crianças a constituir a maioria desses fantasmas." (Philip Matyszak. "Hora Noctis X: The Mother cares for her Sick baby". In: 24 Hours in Ancient Rome. London: Michael O'Mara Books, 2017)

Mortalidade infantil até o primeiro ano se tornou tão normalizada que mesmo o filósofo Cícero menciona: "Deveria ser fácil superar uma criança que morre jovem, e se a criança morre no berço, nem vale a pena prestar atenção" (Cicero, Tusculan Disputations 5.2.413). Ou seja, seu bebê vira um membro da família mesmo, ganha nome e começa a contar como ser humano só se passa do primeiro ano. Antes disso, nem dê muita atenção e nem se apegue -- a chance grande é que ele não sobreviverá.

E pois bem, essa Roma, em dada altura, se tornava cada vez menos relevante como centro do império. As províncias do Norte como Tréveris (atual Trier, no norte alemão) ou Mediolano (atual Milão, no norte da Itália) ganharam maior relevância política por estarem mais próximas das fronteiras. E era nas fronteiras que as coisas aconteciam: onde guerras eram travadas, onde os imperadores começaram a montar suas cortes. Isso prepara terreno para a construção de Constantinopla (na Turquia moderna) e da mudança da capital de Roma para lá mais tarde durante o período que conhecemos como Período Bizantino. Um sinal de que Roma estava perdendo sua estrela foi o momento em que foi rodeada por muralhas em 271 a mando de Aurélio --- até então ela não tinha muralhas porque nunca se tinha sentido ameaçada. Algo estava mudando no século 3 e todo mundo tinha alguma percepção do fato.

Mais um problema: inflação. A economia militar e o comércio exterior eram feitos com moedas cunhadas pelos imperadores. O valor dessas moedas era medido por sua composição em prata, bronze ou ouro. Com o enfraquecimento da economia, imperadores do século 3 começaram a reduzir o conteúdo de metal precioso nas moedas, mantendo seu valor de face nominal. E eles não contaram isso para seus exércitos. Isso resolveu um problema sério: imperadores cunhariam mais moedas a partir da mesma quantidade de metal precioso para financiar crescentes despesas, como custos militares. Mas daí brotaram dois problemas ainda maiores: primeiro, uma inflação galopante. Depois, soldados que haviam lutado suas guerras, recebido por isso, mas que, quando iam comprar coisas, descobriam que seu dinheiro valia uma fração do que parecia.

Entendeu por que imperadores viviam sendo assassinados por tropas revoltosas?

Inflação e diminuição da importância das cidades tradicionais italianas (com exceção de Mediolano) levaram à ruína da elite local, em partes por isso, em partes por uma alteração no sistema de patronato. Na história romana, nenhum governo conseguiu se manter sem uma aristocracia forte e atuante; sempre as elites locais foram responsáveis por manter os templos, o lazer, os prédios da cidade. No século 3, essas elites estavam perdendo seu patrimônio por conta da inflação e pelo empoderamento de uma classe militar (nem sempre educada, muitas vezes estrangeira). Conforme impérios se tornam mais cosmopolitas, elites locais passam a não importar tanto. A população não precisa depender dos favores dela, de seus empréstimos e boas graças.

Aqui reside a resposta para nossa primeira grande questão: como o politeísmo romano perdeu importância e foi substituído pelo monoteísmo cristão? Em partes porque elites locais eram quem mantinham templos e organizavam a prática da religião local. Lembremo-nos que as sacerdotisas vestais eram todas filhas da aristocracia; que famílias como os Juliae (de onde veio Júlio César) afirmavam descender da própria deusa Afrodite. Os templos de Afrodite da cidade de Roma eram mantidos por eles. Ligar sua família a um deus era uma forma de contar o mito de permanência da sua dinastia --- de mostrar que você tinha vindo para ficar no poder. E isso estava perdendo força.

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Diocleciano e suas Reformas

Essa é a crise do século 3. Nesse contexto chega Diocleciano --- um militar, não aristocrata, nascido em Split, na atual Croácia. Diocleciano promove uma reforma completa do império, começando por um plano de proteger suas fronteiras de forma mais eficaz. Nela, o tamanho do exército passa de algo como 200 mil para 400 mil tropas. Em outras palavras, metade dos novos soldados, seja de onde quer que viessem, tinha acabado de ser empregada e entrado em uma carreira promissora a mando do mesmo homem --- sua lealdade estava ligada a ele.

E como Diocleciano pagaria por tanta gente? Aumentando a taxação. Antes de fazer isso, ele aumentou a eficiência da coleta de impostos --- e ele teve que contratar mais funcionários de Estado para fazê-lo de forma justa, exata, com o mínimo de desvios possível.

A lealdade de um monte de gente estava garantida, em detrimento da riqueza das antigas elites, pelas quais ele não morria de amores. Então ele veio com a ideia de dividir a autoridade do imperador em quatro partes. Essa é a tetrarquia. Em vez de um imperador, o império teria dois Augusti (um imperador máximo no Oriente e outro no Ocidente). Diocleciano ficaria no Oriente e, tanto ele quanto seu novo colega de trono escolheriam a dedo dois ajudantes (os Césares), que tirariam o peso dos ombros de seus respectivos Augusti em certas funções administrativas. A ideia era que o império era grande demais para um homem liderar.

A tetrarquia não funcionou, no final das contas, por falta de cooperação dos césares e por rixas internas. Dessa rixa entre Césares e Augusti emergirá Constantino I, como veremos.

Além da reforma política, veio uma reforma econômica. Esse foi o Édito sobre Preços: uma tentativa imperial de tabelar preços praticados em todo o império para coisas do dia a dia, como alimentos e matérias-primas. O problema dessa prática é que ela tem uma tendência de gerar mercados clandestinos. A ideia é a seguinte: você, como vendedor, já que é obrigado a cobrar o preço tabelado, vende sua carne, digamos, por 10 denari o quilo. Mas esse é o pior corte de carne que você pode imaginar; já que não existe concorrência por carne, é pegar ou largar. Para aquele cliente que já compra com você há tempos, você chega e fala: "ó, por 15 denari eu forneço um corte melhor. Por 30, eu vendo a melhor carne no meu açougue". E assim começam mercados clandestinos.

A política foi um fracasso completo. O último fracasso foi sua tentativa de suprimir cultos avessos à cultura politeísta romana, incluindo o cristianismo. Esse é o final de seu reino; eu tratei do tema com detalhe no nosso vídeo sobre a instituição do martírio e você se lembra. Décio, Trajano e Diocleciano perseguiram bispos cristãos e mataram alguns, em episódios isolados, mas Diocleciano, como governante linha-dura do Oriente, manteve um regime de perseguição e proibição por cerca de dez anos. Muitos dos bispos torturados a seu mando serviriam de braços direitos do próximo imperador que viria, um indivíduo chamado Constantino I, e inaugurariam o primeiro momento em que autoridades eclesiásticas começam a alterar os rumos da política romana. É para esse imperador que nos voltamos agora.

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Constantino I e a Cristianização do Império

Constantino I marca o início da cristianização inesperada do Império Romano. Sua biografia é repleta de mitos por motivos óbvios: ele e sua mãe Helena favoreceram o alastramento da influência dos principais nomes da patrística: Eusébio de Cesareia, Ambrósio de Milão, Jerônimo de Estrídon. Alguns desses indivíduos escreveram histórias eclesiásticas, e esse não é um gênero historiográfico --- é uma interpretação da experiência humana a partir de lentes do sobrenaturalismo cristão. Assim, em muito do que chegou a nós sobre Constantino você vai ler sobre uma visão mística que ele teve em dado momento, em que foi visitado por um anjo. Depois disso ele resolve tomar tal e tal decisão política. Eu não vou perder seu tempo com isso, e não falta material de leitura mais sério sobre o homem.

Constatemos o seguinte:

  1. O Concílio de Niceia foi organizado sob os auspícios de Constantino --- também temos um episódio só sobre esse momento decisivo de unificação da fé cristã num centro de poder que viraria a Santa Sé mais tarde, contrária às heresias (ou desvios) de uma doutrina imposta e aprovada pelo imperador.
  2. As bases doutrinárias da igreja católica estavam se formando, e precisava de aprovação de um regente: Constantino I foi esse regente que não transformou o cristianismo em doutrina oficial, mas a legalizou; foi Teodósio I quem mais tarde a transformu em doutrina oficial.

Constantino era filho de um dos Césares da tetrarquia diocleciana (esse é Constâncio Cloro), um oficial romano que se tornaria César e depois Augustus do Ocidente. Constantino serviu na corte oriental sob Diocleciano e Galério, atuando como oficial e, de certa forma, como refém, para garantir a lealdade de seu pai. Era esse o nível de confiança que os césares tinham um no outro: eu mandava seu filho e herdeiro para ser criado com você, você mandava o seu para ser criado por mim --- se você fizesse algum mal para meu herdeiro, eu poderia revidar.

Mas então os dois Augusti no poder abdicam, contra todas as expectativas. Os cargos de poder estavam abertos, e mais do que seis pessoas queriam preenchê-los. A conta não fechava, e Constâncio Cloro se tornava Augustus do Ocidente, levando Constantino com ele para a Britânia para proteger a sucessão de sua família. Há uma porção de batalhas e brigas para ver quem será o sucessor do Império; no final das contas, o pai de Constantino morre, e ele decide desfazer a tetrarquia: todo o poder deveria ser unificado em torno de sua figura. Isso demorou 19 anos, de 305 a 324, e, como minha ave natalina está quase ficando pronta, vou apressar as coisas.

O Cristianismo era subversivo frente aos valores militares do império: então devemos aceitar a ideia de que ele cristianizou aquela sociedade por completo? Existe evidências arqueológicas que apontam para o dado de que não, o Império não foi cristianizado de uma vez. Nem o Sol Invictus (a representação divina do mitraísmo), nem a iconografia pagã de sempre desapareceram das moedas do Império Romano de Constantino, por exemplo. A partir de dado momento começaram a cunhar moedas com o Sol Invictus de um lado e uma cruz cristã no outro; pluralismo religioso é um conceito que explica melhor a nova Roma pós-ano 313.

E o que aconteceu em 313? Foi assinado o Édito de Tolerância. Na época Constantino ainda governava com outro Augustus, Licínio, que era um pagão, que também assina o édito, pensando que aquilo seria melhor, politicamente, para reunificar uma população cindida por rixas. O Cristianismo é legalizado neste momento. No Ocidente, Constantino começa a favorecer a igreja (deixa de cobrar taxação das igrejas, por exemplo, devolve terras confiscadas por Décio, Trajano e Diocleciano, confere cargos de confiança para cristãos etc). Ele deu forma a um novo império cosmopolita, portanto, não exclusivamente cristão. No final de sua vida, aproximadamente 50% do império era cristão, e isso é impacto de um trabalho conjunto entre imperador e os Padres da Igreja, de Ambrósio de Milão a Agostinho de Hipona, sobre quem falaremos em episódios futuros.

O envolvimento de Constantino em controvérsias dentro da igreja revelou a grande dificuldade de controlar a doutrina da religião que ele mesmo sancionou. Sua palavra não valia muito. Mesmo assim, ele tinha poder de dar ordens em bispos, e para lidar com uma polêmica doutrinária, o Concílio de Niceia foi convocado em 325. Um ponto crucial em sua vida foi definir quem seria o verdadeiro líder da religião. Constantino percebeu que esse papel não seria seu, mas também não pertencia claramente ao papa ou ao bispo de Roma naquele momento. Era antes um coletivo de bispos, que sequer concordavam entre si. Levaria mais um tempo para o catolicismo se organizar na hierarquia que temos hoje, com papa, cardeais, bispos etc.

Comparado a Diocleciano, Constantino manteve a estrutura militar do império, mas buscou a pacificação social por meio da tolerância. Sob Diocleciano, o imperador ainda era visto como um deus; Constantino, por sua vez, preservou uma autoridade semisagrada, posicionando-se como amigo da igreja oficial. Essa foi uma mudança simbólica grande e importante. Constantino finalizou a Tetrarquia como estrutura e obteve maior sucesso econômico, criando a impressão de que o Império havia sido restaurado por ambos. Não se esperava, então, as invasões visigóticas que marcariam seu fim em mais ou menos um século dali.

A herança do Império Romano permaneceu intacta até por volta do ano 1000, e até hoje suas marcas estão presentes no Vaticano e em diversas instituições católicas. Só no Vaticano a língua latina sobreviveu, afinal, e se você quiser tirar dinheiro no caixa eletrônico lá, terá que se guiar nos menus escritos em latim. Existe um departamento na Santa Sé onde neologismos como "computador", "rede social", "doxxing" são definidos em latim e arquivados, em uma tentativa de manter a língua viva. Assim, o mais fiel preservador de Roma é hoje a Igreja Católica, o que constitui uma certa contradição: essa igreja começou na ilegalidade dentro desse império e desenvolveu sua cultura em oposição polêmica contra Roma, sua civilização e seus costumes.

Mesmo assim, num império dividido entre Oriente e Ocidente, só o Ocidente moldado por Constantino caiu dali a algumas décadas. Constantino teve três filhos que voltaram a dividir o império como na época da Tetrarquia, e eles não chegaram nem perto de ter administrações tão bem-sucedidas quanto seu pai.

Então é isto: esses dois grandes imperadores do século 4, Diocleciano e Constantino, defiram os rumos do Oriente e Ocidente do Império dali para frente. As reformas de Diocleciano salvaram o Império Romano do Oriente, de certa forma, prolongando sua existência por mais doze séculos. Ele duraria até 1453 funcionando com base nas reformas administrativas dioclecianas, mediando comércio e trocas entre o mundo oriental e a Europa por toda a Idade Média no que conhecemos como Império Bizantino.

Com essa contextualização a gente consegue começar a falar sobre patrística e a formação teológica e institucional da Igreja Católica. Os episódios do início de 2026 lidarão com isso.

Referências

Paul Friedman. History 210. The Early Middle Ages, 284-1000. Yale University (curso). Acesso em: https://www.youtube.com/watch?v=ZC8JcWVRFp8 (sobretudo aulas 1 a 4).

Edward Gibbon. The History of the Decline and Fall of the Roman Empire. London: Encyclopædia Britannica, 1952 (Encyclopædia Britannica's Great Books of the Western World, 41 e 42) (Sobretudo capítulos 13 a 21). Acesso em: https://standardebooks.org/ebooks/edward-gibbon/the-history-of-the-decline-and-fall-of-the-roman-empire

Philip Matyszak. "Hora Noctis X: The Mother cares for her Sick baby". In: 24 Hours in Ancient Rome. London: Michael O'Mara Books, 2017a.

_____. "Hora Noctis XI: The Imperial Messenger sets off for Britain". In: 24 Hours in Ancient Rome. London: Michael O'Mara Books, 2017b.

Zosimus. New History. London: Green and Chaplin, 1814. (Acesso em: https://www.tertullian.org/fathers/zosimus02_book2.htm)