O que é Patrística? Jerônimo de Estridão e Ambrósio de Milão

Não existe um estudo que eu conheça que mostre quantos por cento da doutrina cristã vem do Velho Testamento judaico, quanto vem do Novo Testamento escrito nas províncias do Império Romano; quanto vem dos Evangelhos, quanto das cartas do Apóstolo Paulo. Se existir esse estudo, me indique—e embora essas coisas sejam muito difíceis de mensurar, um dado é certo: se você somar o que a Bíblia Sagrada tem de princípios metafísicos, você não chega à doutrina praticada nas igrejas. Não só os rituais que formam uma missa ou um culto ficam de fora das prescrições desses livros; eu estou falando também de ideias centrais da doutrina como a natureza da Trindade, a ideia da corrupção radical do ser humano, a mariologia, a doutrina do purgatório, proibição de sexo antes do casamento, elogio da castidade etc. Na sua Bíblia, a palavra Trindade não aparece uma única vez; o Criador é retratado ao lado de Sophia (Sabedoria) no início dos tempos em uma passagem de Salmos, mas nem por isso ela é parte do panteão. Mas em Agostinho de Hipona, o teólogo do século IV, você encontrará 500 páginas de metafísica densa tratando da natureza da Trindade, e essa abordagem definiu os termos através dos quais essa questão é discutida por clérigos desde então.

Então, para chegar à teologia cristã praticada da Idade Média até hoje, você precisará ler o que a tradição chama de Patrística. Essa foi uma fase no desenvolvimento intelectual decisiva na história do Ocidente, ela compreende mais ou menos os séculos I ao VIII d.C. — ou seja, começa no Império Romano e termina na Europa; começa na Antiguidade Tardia e termina quase na Alta Idade Média.

Nesse período foram pensados os métodos por meio dos quais o texto sagrado devia ser interpretado — mais uma inovação importante. Nesse período também foi escrito um corpus vasto de produção filosófica, exegética e pastoral que estruturou os pilares doutrinários e institucionais do cristianismo. Antes disso não havia padres, freiras, monges, bispos, cardeais e papas—depois disso havia toda essa complexa hierarquia e a noção da Igreja Católica unificada. E um dos jeitos de entender o conflito teológico entre católicos e protestantes é pelo fato de a patrística ser central para a formação do catolicismo — protestantes a ignoram e mal a leem. A gente chega nessa questão no final, já que ela prepara respostas para muito do que a gente está tratando nesta série.

Parto do livro de Mike Aquilina,1 que mostra que os tais "Padres da Igreja" não eram somente figuras religiosas. Ele os trata como intelectuais públicos que atuaram na intersecção entre a herança clássica greco-romana e a revelação cristã, forjando uma síntese que moldaria a identidade cultural europeia. Não existe uma lista canônica desses Padres, mas seu legado é identificado naqueles escritores cuja obra foi recebida pela comunidade cristã como representativa da tradição apostólica. Esse é um critério mais correto. Entre os mais destacados, figuram os chamados "Grandes Doutores da Igreja" do Ocidente latino, como Ambrósio de Milão, Jerônimo de Estridão e Agostinho de Hipona.

Lista proposta em Aquilina (2013)

São Ambrósio de Milão († 397) *
Santo Anastácio Sinai († 700)
Santo André de Creta († 740)
Santo Afraates (século IV)
Santo Arquelau († 282)
Arnóbio, o Velho († 330)
Santo Astério de Amaseia (século IV)
Santo Atanásio de Alexandria († 373) *
Santo Agostinho de Hipona († 430) *
Atenágoras de Atenas (século II)
São Basílio Magno († 379) *
São Bento de Núrsia († c. 550)
São Cesário de Arles († 542)
São Cesário de Nazianzo († 369)
Papa São Celestino I (reinou 422—432)
São Clemente de Alexandria († 215)
Papa São Clemente I (reinou 88—97)
Papa São Cornélio (reinou 251—253)
São Cipriano de Cartago († 258)
São Cirilo de Alexandria († 444)
São Cirilo de Jerusalém († 386)
Papa São Dâmaso I (reinou 366—384)
Dídimo, o Cego († c. 398)
Diodoro de Tarso († 392)
Papa São Dionísio (reinou 259—268)
São Dionísio Magno († c. 264)
São Enódio († 521)
São Epifânio de Salamina († 403)
São Euquério de Lião († c. 450)
Eusébio de Cesareia († 340)
Santo Eustácio de Antioquia (século IV)
São Firmiliano († 268)
São Fulgêncio de Ruspe († 533)
São Genádio I de Constantinopla (século V)
São Germano de Constantinopla († 732)
Papa São Gregório Magno (reinou 590—604) *
São Gregório de Elvira († c. 392)
São Gregório Nazianzeno († 390) *
São Gregório de Nissa († 395)
São Gregório de Neocesareia († c. 268)
Hermas (século II)
São Hilário de Poitiers († 367)
Santo Hipólito de Roma († 236)
Santo Inácio de Antioquia († c. 107)
Papa São Inocêncio I (reinou 401—417)
Santo Ireneu de Lião († c. 202)
São Isidoro de Pelúsio († c. 450)
São Isidoro de Sevilha († 636)
São Tiago de Sarug († 521)
São Jerônimo († 420) *
São João Cassiano († 435)
São João Crisóstomo († 407) *
São João Clímaco († 649)
São João Damasceno († 749)
Papa São Júlio I (reinou 337—352)
São Justino Mártir († 165)
Lactâncio († 323)
Papa São Leão Magno (reinou 440—461)
São Leôncio de Bizâncio (século VI)
São Macário do Egito († c. 390)
Mário Mercador († 451)
Mário Victorino (século IV)
São Máximo, o Confessor († 662)
São Melitão de Sardes († c. 180)
São Metódio de Olimpo († c. 311)
Minucio Félix (século II)
São Nilo da Sinai († c. 430)
Novaciano († c. 257)
São Optato de Milevi (século IV)
Orígenes († 254)
Aurélio Prudêncio Clemente (séculos IV/V)
São Paciano de Barcelona († c. 390)
São Pânfilo de Cesareia († 309)
São Paulino de Nola († 431)
São Pedro Crisólogo († 450)
São Febádio de Agen (século IV)
São Policarpo de Esmirna († c. 155)
São Proclo de Constantinopla († c. 446)
Pseudo-Dionísio, o Areopagita (século VI)
São Romano, o Melodista (século VI)
Rufino de Aquileia († 410)
Salviano de Marselha (século V)
São Serapião de Thmuis († c. 370)
Papa São Sirício (reinou 384—399)
São Sofrônio de Jerusalém († 638)
Taciano, o Sírio (século II)
Tertuliano († c. 222)
Teodoro de Mopsuéstia († 428)
Teodoreto de Cirro († c. 458)
São Teófilo de Antioquia (século II)
São Venâncio Fortunato (século VI)
São Vicente de Lérins († c. 450)

* Indicados entre os oito "Grandes Doutores" da Igreja Católica.

Além disso, a tradição os organiza cronologicamente:

Padres Apostólicos: Geração imediatamente posterior aos apóstolos.

Padres Pré ou Ante-Nicenos: Guiaram a Igreja até o século IV, período de perseguições e primeiras grandes heresias.

Padres de Niceia e Pós-Niceia: Viveram o "Século de Ouro" da definição doutrinária, dos grandes concílios ecumênicos que estabeleceram os pilares da doutrina da Trindade e de Cristo. Os principais entre estes divididos entre os 4 Grandes Doutores do Oriente e os 4 do Ocidente (Agostinho de Hipona está no último grupo).

O principal diferencial destes Grandes Doutores foi sua capacidade de formular métodos de interpretação bíblica influentes, os quais permitiram a leitura das Escrituras como um texto coerente e multifacetado. Chegou o século III, e a igreja constatou conter em si uma imensa variedade de versões de cristianismo praticadas no Império Romano, muitas vezes conflitantes e desobedientes ao clero centralizado em Roma. Vertentes assim foram perseguidas até o século XI, sendo designadas "heresias", mas perseguir uma heresia aqui, outra ali não resolveria o problema do cisma eclesiástico a longo prazo. A maioria dos cristãos do século III era iletrada; o texto sagrado sequer tinha sido unificado como uma só Bíblia (ou mesmo defendido como um só livro coerente, algo que Atanásio e Jerônimo defenderiam nos anos seguintes). Assim, foi preciso ao menos começar a discutir como encontrar sentido naquilo. Num amontoado de livros escritos em diferentes línguas, épocas e culturas.

No princípio, a "Boa Nova", ou "Evangelho", era uma designação para a totalidade da mensagem da vinda de Cristo ao mundo. Os Atos dos Apóstolos podem dar a impressão de que bastava aos primeiros cristãos pregar Jesus Cristo crucificado e ressuscitado para que conversões em massa acontecessem. No entanto, os livros posteriores do Novo Testamento também mostram que a Igreja, desde o início, lutou contra doutrinas aberrantes.

A principal fonte dos Padres para os atos, ensinamentos e sofrimento de Jesus era "o Evangelho". Hoje, entendemos essa palavra como representando os livros do Novo Testamento, especialmente os quatro livros da vida de Cristo. Mas no tempo dos Padres Apostólicos, e mesmo nos séculos seguintes, "o Evangelho" significava a Tradição recebida, seja na forma escrita ou oral (ver 2Ts 2:14). "A fé vem pela pregação", disse São Paulo (Rm 10:17).

Nas homilias, cartas, tratados teológicos e livros catequéticos, praticamente cada página está repleta de citações do Novo e do Antigo Testamento, e esse virou um estilo próprio da patrística que irrita pessoas situadas fora da igreja, mas continua sendo usado por pastores evangélicos hoje: eu encontrei isso inicialmente nos discursos de Ambrósio de Milão. Ao explicar qualquer coisa, ele mais cita a Bíblia do que expressa suas próprias ideias objetivamente. O fato de qualquer coisa estar sendo dita na Bíblia como princípio é suficiente para ele como argumento de verdade — mesmo que não se encaixe na conversa que está tendo.

Em Agostinho de Hipona isso é levado à última potência. Eu coloco na tela a página 41 de Confissões: a edição brasileira da Companhia das Letras colocou tudo o que é citação bíblica em itálico para distinguir o que é Agostinho falando, o que é fonte externa: para quem não confere autoridade à Bíblia, esse é um estilo cansativo, que nem sempre preza pelo sentido, mas mais pela mostra de que essa pessoa decorou trechos inteiros da Bíblia e você não. Na época esse tipo de comunicação fazia sentido caso você fosse um líder religioso: seriam a única chance de pessoas terem contato com conteúdo da Bíblia via citações diretas. Havia a crença, que trataremos em seguida, de que aquele era um texto inspirado pelo próprio Criador de tudo. Dessa forma, ele era um texto misticamente carregado; havia algo de sobrenatural e transcendentalmente verdadeiro nas entrelinhas. Misturar isso ao seu discurso seria, portanto, uma forma de usar bem seu poder de fala.

Mas isso não significava que eu ou você conseguiria decifrar o mistério desses versos inspirados. Eles estariam sempre grávidos de novos sentidos, que surgiriam conforme o devoto crescesse em sua experiência com o divino. A conclusão a que os Padres chegaram foi que a Bíblia teria que possuir múltiplos sentidos, todos operando ao mesmo tempo: isso a permitiria falar com diferentes pessoas, vivendo diferentes experiências em suas vidas. Haveria um sentido literal (histórico) e um espiritual, este último frequentemente subdividido em alegórico (referente a Cristo e à Igreja), moral (tropológico) e escatológico (anagógico). São 4. Essa abordagem tem raízes na tradição judaica (como em Fílon de Alexandria) e foi teorizada por autores como Orígenes, permitiu que o Antigo Testamento fosse lido à luz do Novo, criando uma narrativa contínua da história da salvação.

O resultado disso pode ser visto na forma como o Catecismo católico é definido:

Esta catequese desvenda o que estava oculto sob a letra do Antigo Testamento: o mistério de Cristo. É chamada «tipológica», porque revela a novidade de Cristo a partir das «figuras» (tipos) que a anunciavam nos factos, palavras e símbolos da primeira Aliança. Por esta releitura no Espírito de verdade a partir de Cristo, as figuras são desvendadas (12). Assim, o dilúvio e a arca de Noé prefiguravam a salvação pelo Baptismo (13), tal como a nuvem, a travessia do Mar Vermelho e a água do rochedo eram figura dos dons espirituais de Cristo (14); e o maná do deserto prefigurava a Eucaristia, «o verdadeiro Pão do céu» (Jo 6, 48). (n. 1094). Fonte: https://www.catecismodaigreja.com.br/paragrafo-1094/

Ambrósio chama os próprios ritos da missa católica de mistérios nesse sentido: um ritual praticado na missa da sua cidade é uma referência a um evento (real ou não) descrito no século X AEC hebreu. Existe uma relação mística entre essas duas coisas; elas significam a mesma coisa, e reafirmam uma verdade teológica, digamos. Essas relações entre narrativa simbólica da Bíblia e o sentido que vai se revelando para ela com o passar da história é algo que "foi prefigurado na origem do próprio mundo". (Ambrósio de Milão. "Sobre os Mistérios". In: Explicação do símbolo. Sobre os sacramentos. Sobre os mistérios. Sobre a penitência. São Paulo: Paulus, 1996, p. 83 (3.9.)). Isso torna o Cristianismo, tal qual interpretado na época da Patrística, uma religião extremamente mística. Tanto quanto o hinduísmo, o taoísmo. Engraçado católicos atribuírem isso à religião dos outros. Mais uma crítica futura dos protestantes contra a Santa Sé.

Como se interpretavam textos religiosos até aquela época? Dependia de onde você estava: a Escola de Alexandria (Egito) tendia a privilegiar o sentido alegórico-espiritual, enquanto a Escola de Antioquia (Síria) enfatizava o aspecto histórico-direto. Cada uma formava seus próprios clérigos, então calcule: um camarada que estudou no Egito aprenderia a ver alegoria em tudo e vice-versa. Com a Patrística e figuras como Jerônimo e Agostinho, começa uma maior integração de várias perspectivas, estabelecendo um paradigma hermenêutico que dominaria a Idade Média e, por extensão, formaria o modo como pastores e padres interpretam seu texto-base até hoje. Pouca coisa mudou, em termos de método de leitura, desde esses dois camaradas escrevendo no século IV.

E a gente precisa falar de um deles. A figura de Jerônimo de Estridão (c. 347—420) emerge como um dos agentes culturais mais impactantes dentro do debate por interpretações bíblicas. Em partes porque a primeira tradução oficializada da Bíblia em latim é dele.

Estridão ficava na província da Dalmácia, hoje seria a cidade de Liubliana na Eslovênia: olha como o Império Romano era imenso. Ali imperava um ambiente de educação clássica, e o jovem Jerônimo foi inicialmente um discípulo do estoicismo e do estilo de escrita de Cícero, quando se uniu aos milhares de cidadãos do Império Romano que se converteram ao cristianismo no período pós-ano 311. Jerônimo teve a sensibilidade de um erudito das letras clássicas e se deu conta de que a tradução cristã precisava de uma reforma editorial: a partir de então ele dedicou sua vida à tradução e exegese das Escrituras. Sua missão mais perene foi a produção da Vulgata, a versão latina da Bíblia encomendada pelo Papa Dâmaso I para substituir as inúmeras e inconsistentes traduções anteriores, conhecidas como Vetus Latina.

*

Aqui ele adotou uma metodologia considerada avançada para sua época: no século IV, livros eram copiados com nível de fidelidade variado. Você compara o mesmo livro, e vai se deparar com muitos erros de grafia, e isso em partes porque não havia instituições nacionais empenhadas em regulamentar a linguagem escrita. O grego escrito em uma cidade era um pouco diferente do grego escrito na outra; mesmo pessoas educadas da época (como Plotino) tinham formas próprias de escrever certas palavras que, hoje, seriam consideradas equivocadas.

Quando o assunto era textos ligados à fé, pior ainda: um copista que não concordasse com uma passagem do livro que estava copiando muitas vezes a "corrigia", ou a obliterava por completo. O rigor editorial que nós temos hoje é algo moderno; é produto de uma época em que se entende que a língua nacional é um patrimônio de um povo, devendo ser normatizada e protegida. No mundo antigo isso não acontecia, embora houvesse um critério de deferência aos clássicos: se Cícero, por exemplo, que era um autor consagrado, escreveu certo termo em latim de tal forma, não tinha por que você querer escrever diferente. Vai querer competir com um dos mestres da literatura latina?

O critério de correção ortográfica, portanto, era comparativo — mas só no caso de você fazer parte do mundo de educação greco-romana. Foi o caso de Jerônimo, e eis o critério que ele adotou para fazer a primeira tradução latina da Bíblia que foi e aceita como definitiva por, mais ou menos, 1000 anos de história católica. Em 1585, Sixto V revisou equívocos de tradução que realmente existiam na Vulgata de Jerônimo, mas piorou o estado do texto. Uma Nova Vulgata só foi lançada em 1970.

Quando Jerônimo começa a traduzir os Evangelhos, o que os cristãos tinham disponível era a Septuaginta (a Bíblia hebraica e aramaica traduzida para o grego). E, em várias províncias do Império Romano, só pessoas altamente educadas eram versadas em grego; para sanar esse problema, surgiram as antigas bíblias latinas (Vetus latina). Arqueólogos desenterraram algumas delas. Não existe DUAS bíblias dessas que combinem; elas são escritas em um latim sem pontuação, sem espaçamento entre palavras. Ler um texto corrido e ter que adivinhar onde acaba uma palavra é algo maçante, pouco prático, mesmo que você fale a língua bem, e todo mundo sabia: alguém precisaria fazer o serviço melhor.

Jerônimo foi esse alguém. Ele foi originalmente contratado para traduzir só os quatro Evangelhos, a princípio. Mas então decide traduzir os Salmos como um extra, além de prefaciar cada um dos livros o melhor que podia. A prática de comentários bíblicos começa aqui: isso é o que a gente chama de exegese, uma complementação escrita pelos editores ou tradutores para ajudar na compreensão de textos difíceis, ou já antigos demais para seus leitores e leitoras históricas.

A princípio, essa versão de Jerônimo acabaria aqui, mas Damásio faleceu pouco tempo depois. Jerônimo se viu livre de suas incumbências, partindo para a cidade de Belém para fazer estudos da alegada cidade-natal de Cristo, se instala lá e impõe a si mesmo a tarefa: eu vou traduzir a coisa toda. Ele começa a tradução a partir do grego. Quando chega nos textos do Velho Testamento, originalmente escritos em hebraico, ele se depara com problemas sérios: há trechos que não faziam sentido. Os Salmos mesmo ele tem que traduzir três vezes, do zero, até encontrar uma versão que o agradava.

Nas primeiras versões dos Salmos, ele se pautou na versão grega que existia em Roma. A gente a chama de Saltério Romano. Nas outras, ele já tinha tido contato com o Saltério Galicano, que apresentava variantes importantes. Enquanto o Romano era literal e seco demais, o Saltério Galicano prezava pelo conteúdo poético próprio dos Salmos. Então, para dar um exemplo direto — no Salmo 23:

Tradução do Saltério Romano: Dominus regit me ("O Senhor é meu regente.")

Galicano: Dominus pascit me ("O Senhor é meu pastor")

Nota a diferença? Na prática, no momento em que Jerônimo está questionando a autoridade de um texto consagrado (a Septuaginta), e inferindo que talvez, os tradutores não tenham feito o melhor trabalho, ele está abrindo um debate teológico que constrange muitos cristãos até hoje: o dogma diz que os livros bíblicos foram divinamente inspirados. Não faria qualquer sentido que eles fossem divinamente inspirados, se suas traduções também não fossem inspiradas — o objetivo do Divino com seus livros é transmitir uma mensagem transparentemente para que seus fiéis entendam sua vontade. E Jerônimo está dizendo que um texto grego está errado.

Mesmo depois, Agostinho de Hipona (em Cidade de Deus, livro XVIII, capítulo 43, dá uma olhada), vai tentar salvar a credibilidade da Septuaginta: ele tenta argumentar a favor da inspiração divina de uma tradução comprovadamente equivocada, e na minha opinião seu argumento falha completamente. Jerônimo ao menos teve a honestidade de reconhecer uma lacuna no dogma da inspiração divina dos tradutores e corrigir o erro. Ele começou a aprender hebraico em Belém, para finalizar seu legado de vez; ele traduziria também o Velho Testamento dos originais, contrastando-os com o texto massorético (que são os comentários compilados de rabinos judeus sobre o conteúdo da Torá). E ele chamou seu critério tradutológico de hebraica veritas ("a verdade está no texto hebraico"). Não traduza a partir de traduções; use o original.

Aprender hebraico levou mais de uma década, e historiadores duvidam que ele tenha aprendido hebraico antigo fluentemente, dadas as condições de aprendizagem na época. De qualquer forma, ele pôde melhorar sua própria tradução e ter algo com que comparar a Septuaginta.

Pergunta crucial: o serviço que Jerônimo fez foi bom, afinal? Sua tradução não está isenta de problemas e consequências culturais a longo prazo. Algumas de suas escolhas lexicais refletiram pressupostos teológicos que ele tinha ou limitações linguísticas que geraram interpretações específicas com que a própria Santa Sé hoje discorda.

Exemplo, em Mateus 3:2, Jesus é retratado dizendo:

Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.

Esse "arrependei-vos" em grego é derivado da palavra μετάνοια (metanoia), que significa "mude de mentalidade", "converta-se". Na Vulgata ela foi traduzida como paenitentiam agite ("fazei penitência"), o que distorce bastante o sentido. Em vez de mudar sua forma de vida por causa de um arrependimento interior, você tem aqui um mandamento de prática de penitência após reconhecer seu pecado. Por algum tempo, fiéis interpretaram isso como um mandamento para você se chicotear, por exemplo. Isso alterou a prática sacramental ocidental por alguns séculos.

Outro exemplo está em Lucas 1:28 fala de Maria:

E, vindo o anjo até ela, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres.

A Septuaginta traz o particípio grego κεχαριτωμένη (kecharitōmenē) ("Salve, tu que foste agraciada" ou "favorecida"). E isso foi vertido por Jerônimo como gratia plena ("cheia de graça"), uma formulação que, ao passar de um estado concedido a uma qualidade inerente, alimentaria desenvolvimentos posteriores na mariologia. Maria vira uma entidade semidivina aqui, acima dos outros seres humanos. A Igreja Católica nunca voltou atrás dessa ideia, embora saiba do equívoco tradutológico de Jerônimo. Protestantes questionaram o dogma do estatuto divino da mãe de Jesus justamente a partir desse trecho.

Um último trecho, prometo, que esse é particularmente desastroso: este é Êxodo 34:29, trecho em que Moisés está descendo do monte Sinai com as Tábuas da Lei:

E aconteceu que, descendo Moisés do monte Sinai, as duas tábuas do testemunho estavam nas mãos de Moisés, sim, quando desceu do monte, Moisés não sabia que a pele do seu rosto resplandecia, depois que falara com ele.

Destaque para onde diz que ele não sabia que seu rosto estava brilhando. O hebraico qaran (que significa "radiante" ou "com raios de luz") foi confundido com a palavra para "chifres" (qeren), resultando na célebre tradução da Vulgata: cornuta esset facies sua ("seu rosto estava chifrado"). E isso foi responsável pela iconografia medieval de um Moisés como um homem com chifres. Está imagem que deixo aí é da Catedral de San Pietro, em Roma. Obra de Michelangelo Buonarroti, inclusive. Ou seja: em 1505, um artista da Renascença ainda estava retratando Moisés com base num equívoco de tradução.

Como você argumenta a favor de uma inspiração divina dos tradutores? Não digo isso só por não ser cristão e não compartilhar dessa crença de que o Divino interfere no mundo — o próprio Lutero, na época da Reforma, e Erasmo de Roterdã, para falarmos de algo do outro lado dos debates da época, colocaram essa doutrina central em dúvida. Argumentaram que a Igreja Católica não era portadora da autoridade religiosa que atribuía a si — e que, por isso, a Bíblia devia ser retraduzida. No caso de Lutero, não mais para o latim, mas para uma língua vernácula moderna, o alto-alemão. Ele se valeu de uma tecnologia só um pouquinho importante que tinha acabado de surgir na época — a imprensa de Gutenberg — , traduziu a Bíblia de cabo a rabo para um alemão falado por pessoas comuns, e propôs uma versão da doutrina em que cada lar cristão deveria ter uma cópia daquele livro. Cada fiel deveria aprender a lê-lo, interpretá-lo, minando assim a autoridade dos padres sobre a salvação individual. Lutero só conseguiu fazer sua reforma radical da Cristandade funcionar, em partes, porque retraduziu o livro e retomou a questão da inspiração divina do texto sagrado, em uma chave nova, moderna e convincente. Essa questão foi e continua sendo de suma importância para a Cristandade.

Mas Lutero veio 1000 anos mais tarde que Jerônimo. Apesar dos pesares, a Vulgata de Jerônimo era extremamente avançada de um ponto de vista editorial para padrões do século IV. Ela se tornou o texto bíblico padrão do Catolicismo e unificou o Ocidente latino por mais de um milênio; foi fundamental para a liturgia, a teologia escolástica e a literatura medieval.

Paralelamente a essa consolidação textual, a patrística latina via surgir figuras que modelariam a relação entre Igreja e poder temporal. Então, para a tradição católica, houve uma fase mística em que os homens e as mulheres que moldaram a doutrina eram visitados pelo divino. Mas houve uma fase posterior em que os Padres da Igreja viveram em um universo árido e sem graça como aquele em que vivemos: e eles tiveram que lidar com política do Império Romano em suas diversas fases.

Ambrósio de Milão (c. 340—397) é um caso paradigmático aqui. Sua elevação ao episcopado da cidade de Mediolano (atual Milão, no Norte italiano) aconteceu em 374, e ela foi um evento notavelmente secular: ele assume o cargo de bispo como quem assume um cargo político. Ele sequer tinha formação teológica formal, e foi transferido para lá após trabalhar como governador consular da Ligúria. Mas na época, Milão era um centro importante de disputas políticas entre a vertente ariana e a vertente católico-nicena. Até então a cidade tinha sido controlada pelo bispo ariano Auxêncio, com a morte deste, resolveram colocar um administrador público competente que fosse católico. Ambrósio foi batizado às pressas, ordenado e consagrado, recebendo as bênçãos do imperador Graciano. Mesmo assim Ambrósio se provou como uma figura inquestionavelmente devota à causa católica. Ele se tornou um dos bispos e teólogos mais influentes e competentes da época.

Ambrósio lutou contra o arianismo por mais da metade de seu episcopado. A unidade eclesiástica era importante para a igreja, mas não menos para o Império Romano pós-Constantino, e Ambrósio, como romano, tinha plena noção disso. O conflito sobre heresias era proeminente em uma era de fermento religioso comparável à Reforma dos séculos XIV e XV.

Graciano foi "alertado" de que a fé de Ambrósio era suspeita e tomou medidas para investigar, escrevendo ao bispo e pedindo que ele explicasse sua fé. Eles se encontraram pela primeira vez em 379, durante uma visita a Milão. Ambrósio impressionou favoravelmente Graciano e sua corte, que era profundamente cristã e aristocrática. O imperador retornou a Milão em 380 e encontrou Ambrósio em conformidade com seu pedido por uma declaração de fé — dois volumes conhecidos como De Fide, uma afirmação de ortodoxia e da teologia política de Ambrósio, além de um polêmico contra a heresia ariana, destinado à discussão pública. Essa dinâmica patronal dos romanos, aplicada ao alto clero, exigia que o teólogo demonstrasse lealdade e concordância com as opiniões do imperador através de escritos doutrinários, que assumiam caráter coletivo e viravam apostilas para formar os próximos clérigos. Essa é a essência de muito da literatura patrística. Há algo de pedagógico nela.

Em 382, o imperador Graciano foi o primeiro a desviar subsídios financeiros públicos que anteriormente apoiavam os cultos romanos para erigir prédios cristãos — aqui a gente está na fase avançada de substituição do paganismo greco-romano-egípcio-síriaco pelo cristianismo niceno, tópico já tratado anteriormente.

Enquanto Ambrósio escrevia De Fide, Teodósio publicou sua própria declaração de fé em 381 em um édito que estabelecia o cristianismo niceno como a única versão legítima da fé cristã. Em 28 de fevereiro de 380, Teodósio emitiu o Édito de Tessalônica, determinando que apenas cristãos que não apoiassem visões arianas eram católicos e poderiam ter seus locais de culto oficialmente reconhecidos como "igrejas". E a partir daqui o bicho pegou. Se um século antes, a violência da guarda pretoriana se voltou contra cristãos por não observarem rituais pagãos, agora cristãos nicenos estavam perseguindo outras denominações. Violentamente.

Houve o que chamamos de Massacre de Tessalônica em 388-390, com baixas que passam de 5000 pessoas (segundo minha fonte). E nesse momento, o imperador Teodósio foi confrontado por Ambrósio para realizar um ato de penitência pública. O bispo estava fora da corte durante os eventos, mas, após ser informado, escreveu uma carta ao imperador, pressionando por uma demonstração de penitência e afirmando que, como seu bispo, não lhe daria a comunhão até que reconhecesse que perseguir cristãos em nome do cristianismo tinha sido um ato no mínimo estúpido.

A tradição católica conta que esse foi um evento solene, que mostra o momento em que ela se interpõe como autoridade moral perante o poder do Estado. Mas esse famoso encontro na porta da catedral de Milão, com Ambrósio bloqueando a entrada de Teodósio, foi desmistificado por historiadores modernos como uma ficção. Mais uma. Ambrósio não era "um poder atrás do trono" como historiadores da igreja afirmam (vide Vita Ambrosii de Paulinus, Cidade de Deus de Agostinho). Os dois homens sequer se encontravam frequentemente, e os documentos que revelam seu relacionamento são mais sobre negociações entre duas instituições poderosas do que sobre amizade pessoal. Ambrósio era um servo de Teodósio, e bispos e papas continuariam sendo até a Idade Média.2

Outro incidente anterior a este aponta para o mesmo descompasso entre autoridades religiosas e imperiais. Em 383, o imperador Graciano foi assassinado em Lyon por Magno Máximo. Ele não deixou herdeiros, e seu irmão mais novo deveria assumir. Dois anos depois, o imperador Valentiniano II e sua mãe, Justina, professaram adesão ao arianismo. Os arianos exigiram que Valentiniano II lhes destinasse duas igrejas em Milão. E sobrou para Ambrósio; como bispo de Milão, se recusou a entregar as igrejas, invocando um princípio romano antigo: um templo dedicado a um deus tornava-se propriedade desse deus. Ele enviou respostas contundentes ao imperador, declarando-se pronto para a prisão ou morte, mas jamais trairia a igreja de Cristo. O imperador certamente tinha poder para agir, mas provavelmente não o fez devido à popularidade de Ambrósio com o povo em um momento de fragilidade política — em qualquer outro caso ele teria mandado sumir com Ambrósio.

O que ficou de sua fama foram mais seus escritos do que suas ações. Ambrósio escreveu a Valentiniano, por exemplo: "Em matéria de fé, os bispos são juízes dos imperadores cristãos, não os imperadores dos bispos". Ele também disse a um bispo ariano escolhido pelo imperador: "O imperador está na igreja, não acima da igreja". Seus escritos, assim, criaram uma espécie de modelo que permaneceria válido no Ocidente latino para as relações entre a Igreja e o Estado cristão. Na prática, Ambrósio também estava bem ciente dos limites de sua agência. Em 396, agentes imperiais marcharam para sua igreja, passaram por ele e seu clero que protegiam um suspeito político no altar, e arrastaram o homem para fora, sem que Ambrósio pudesse fazer qualquer coisa. Quando se tratava das funções centrais do Estado romano, mesmo o notável Ambrósio era mais um cidadão comum.

Todas as obras de Ambrósio são de defesa do cristianismo niceno, e até suas visões e ações políticas estavam intimamente ligadas à sua religião. Ele se engajou no ascetismo prevalente da época, continuando o treinamento estoico e ciceroniano de sua juventude, o que lhe permitiu promulgar um alto padrão de ética cristã — e esse aperfeiçoamento da moral das congregações cristãs foi curiosamente devedor ao mundo greco-romano.

Eu falo sobre a obra de Ambrósio mais tarde porque este episódio está ficando imenso, mas façamos um balanço da ideia de Patrística latina. Sua influência para o mundo medieval é imensa. Em primeiro lugar, forneceu o texto fundamental: a Vulgata de Jerônimo foi a principal ferramenta de transmissão do conhecimento bíblico. Em segundo lugar, legou os métodos: a hermenêutica dos quatro sentidos das Escrituras, sistematizada por Cassiano e depois por Gregório Magno, tornou-se o padrão para a forma medieval de interpretar o mundo. Fenômenos da natureza podiam ser interpretados alegoricamente. A alegoria virou um dispositivo de interpretação da realidade sem o qual o barroco não teria se configurado. Em terceiro lugar, a patrística estabeleceu os modelos institucionais e de pensamento: a distinção ambrosiana entre o temporal e o espiritual alimentou os conflitos entre papado e império (a divisão do que Agostinho chamará de Cidade de Deus e Cidade dos Homens mais para frente); e a visão sacramental do mundo, desenvolvida por Agostinho a partir de Ambrósio, impregnou toda a cosmovisão medieval.

Portanto, a patrística não foi simplesmente uma fase "pré-medieval" ou um apêndice doutrinário do cristianismo. Foi o período criativo em que os fundamentos intelectuais da civilização ocidental pós-clássica foram estabelecidos — a gente pode pensar numa transição da Antiguidade Tardia para a Idade Média, de Roma para a Europa, nesse momento da cultura.

Através da tradução, interpretação e teorização dos Padres latinos, a herança bíblica e clássica foi fundida em um novo todo orgânico, fornecendo a linguagem conceitual, as estruturas mentais e os referenciais de autoridade que guiariam a cultura, a educação, a política e a vida religiosa da Europa ao longo de toda a Idade Média e para além dela.

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Bibliografia

  • Ambrósio de Milão. Explicação do símbolo. Sobre os sacramentos. Sobre os mistérios. Sobre a penitência. São Paulo: Paulus, 1996.
  • Catecismo da Igreja Católica. Acesso em: https://www.catecismodaigreja.com.br/paragrafo-1094/
  • Doležal, Stanislav. "Rethinking a Massacre: What Really Happened in Thessalonica and Milan in 390?". Eirene: Studia Graeca et Latina. Vol. 50, 2014,
  • McLynn, Neil B. Ambrose of Milan: Church and Court in a Christian Capital. Berkeley: University of California Press, 1994. (The Transformation of the Classical Heritage, vol. 22)
  • Mike Aquilina. The Fathers of the Church: An Introduction to the First Christian Teachers. 3rd Edition. Huntington: Our Sunday Visitor, 2013. ("The World of the Fathers: Introduction")
  • Ryan M. Reeves. "Ambrose and Jerome". Historical Theology at Gordon-Conwell Theological Seminary. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6FVTeFkEpmo
  • Ryan M. Reeves. "The History of the Vulgate." Historical Theology at Gordon-Conwell Theological Seminary. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EF98_HnYHjQ

1 Mike Aquilina. The Fathers of the Church: An Introduction to the First Christian Teachers. 3rd Edition. Huntington: Our Sunday Visitor, 2013. ("The World of the Fathers: Introduction")

2 Doležal, Stanislav. "Rethinking a Massacre: What Really Happened in Thessalonica and Milan in 390?". Eirene: Studia Graeca et Latina. Vol. 50, 2014, p. 90-91.