Este episódio vai trazer algo que é uma hipótese minha de que existe uma ligação lógica e esperável entre a instauração da Igreja Católica como religião oficial do Império Romano no século 4, a caça a denominações diferentes do Cristianismo até o século 9, e depois a caça às bruxas que se estendeu mais ou menos do século 11 até o 18. São 1400 anos de história, é muito difícil resumir tudo isso sem deixar várias lacunas abertas, então sejam compreensivos aqui: se você quiser mesmo entender a história da perseguição contra supostas bruxas — e eu já afirmo que bruxas, mulheres com poderes mágicos e parte com o demônio não é algo em que eu acredito. Eu sou um adulto do século 21, não uma criança cheia de superstições —, mas se você quiser entender essa história a fundo, você estaria numa biblioteca pesquisando dezenas de livros. Se quiser um resumo dessa que foi uma perseguição sistemática de católicos contra mulheres solteiras em geral, e contra dissidentes do poder absoluto e inverificado dado à Igreja, este vídeo vai servir como uma introdução.
O início: a cristianização forçada da Europa
A história começa com um dado que deixei de mencionar no último episódio: quando a Igreja Católica se instalou como credo oficial do Império Romano lá no ano 392, a grande dificuldade foi transplantar um monoteísmo para um espaço geográfico que, há milênios, religião era sinônimo de costumes locais e observância de rituais. O Império Romano começou com a cidade de Roma, mas virou uma máquina de conquistar territórios: e ele já tinha se estendido até lá o Norte, na Inglaterra, onde práticas religiosas eram muito diferentes do que o que os italianos tinham visto. A religiosidade das pessoas sequer tinha um nome; era somente a visão de mundo que seus antepassados lhe passaram e que você cultivou. Todos os nomes de seitas e heresias que começaram a preencher códices católicos no século 7 advém de um esforço de catalogação da igreja: muitas vezes catalogação equivocada, que dava vários nomes para o mesmo conjunto de crenças. Não havia um método rigoroso para realizar o serviço.
Os druidas (a classe sacerdotal da sociedade celta), por exemplo, foram categorizados como "gnósticos": eles eram um grupo britânico, e nem tiveram chance de ter tido contato com as doutrinas gnósticas originadas na Pérsia do século 2 e que a gente tratou em três episódios diferentes. Mas para a Santa Sé, era esse o time pro qual jogavam: eles criam no Bem e no Mal como forças igualmente poderosas, o nome disso é dualismo → e dualismo é a ideia primordial dos persas antigos → logo, os 2 grupos seriam parte da mesma heresia. De uma perspectiva das províncias romanas, a inimizade dos católicos muitas vezes soava gratuita — os caras chegavam lá tocando o terror por você acreditar no que seus pais te ensinaram. Era a única religiosidade disponível para muitos dos chamados povos bárbaros.
Comparar o cristianismo ± brando do séc. 7 e o cristianismo histérico do séc. 14 dá mostras de um desenvolvimento coerente de várias noções que se grudaram à ideia atual de civilização ocidental. Teólogos medievais moldaram a colonização interna da Europa — que converteria os pagãos para a verdadeira fé de forma a preparar o mundo p/ o Apocalipse —, algo que tem muito a ver com a colonização do Novo Mundo. Essa é uma hipótese minha, eu nunca a desenvolvi em um livro, e nem vou fazer isso porque na minha visão nem vale a pena. Mas vou propor que pensemos juntos no colonialismo que moldou a nossa sociedade aqui nas Américas como uma ideologia cujas origens são também teológicas; seu exclusivismo ("só o nosso modo de vida é válido"), seu doisladismo ("ou está do nosso lado ou é inimigo") e seu oportunismo ("me misturo com infiéis enquanto puder convertê-los") são todas características que vazaram para outras formas de colonialismo ainda ativas. E que moldou a espécie de ciência de relações internacionais de Estados europeus na Era Moderna. Ela doou o caráter da Europa e a forma como nós, do Sul Global, vemos os europeus. Como filhotes do colonialismo.
O século 7: penitência e paternalismo
Eu me volto para o século 7. Existe um livro importantíssimo aqui chamado Liber Poenitentialis, que mostra uma faceta mais branda da punição de súditos dos reis cristãos europeus no século 7. Nessa época ainda não havia a ideia de bruxas; havia sim membros de povos conquistados que não se deixaram convencer pela fé católica. Que "usavam cabeça de bestas em seus rituais" durante o Ano Novo, reclama o autor do livro, e adoravam a deusa Deméter ou qualquer outro resquício do paganismo antigo. Para tais casos, o Liber Poenitentialis propõe uma série de medidas punitivas a ser tomadas por padres. Nenhuma delas é mais séria do que a penitência pessoal, semelhante àquela coisa de rezar quinhentas ave-marias para sanar um pecado. Não era uma punição violenta, mas um ato de paternalismo: a ideia era que esse ato de fala de repetir mil vezes uma crença católica serviria de porta de entrada para a verdadeira fé na mente fraca do pagão e pagã, levando-os a um convencimento gradual de qual fé era a verdadeira.
Segundo esse livro, o pecado por bruxaria (em latim, maleficium) é só isso: apego a tradições pagãs antigas que substituem a figura de Cristo e da virgem por outras deidades. Que substitui os sacramentos por rituais ligados aos bichos da floresta e forças da natureza. O catolicismo é a sublimação da natureza (como o gnosticismo foi), e uma das poucas religiões que desprezam, radicalmente, o mundo natural como um espaço sem qualquer transcendência possível. A natureza é só um pano de fundo onde as forças imateriais digladiam, onde a personagem principal da criação — o humano — transita e desempenha seu papel do theatrum mundi.
Assim, bruxas = pagãs no começo da Idade Média. Foi só depois de anos e mais anos com cardeais e papas se reunindo em concílios para disputar qual seria a verdadeira versão da fé cristã, e que começaram a designar versões heterodoxas como heresias, que o bicho começou a pegar. Nesse momento, cristãos fervorosos que não aceitassem a versão oficial precisaram ser destruídos implacavelmente: não havia nada que uma autoridade católica medieval abominasse mais do que concorrência.
Século 10-12: centralização do poder e o nascimento da heresia como crime
Passando do século 7 para o 10, o cenário de embate da Igreja Católica por mentes e almas mudou significativamente. O Islã deixou de ser seu maior problema e, uma vez que a Europa alcançou estabilidade relativa com os grandes reinos cristãos, a questão virou: como a gente garante um poder autônomo e centralizado do clero europeu, como um todo? O primeiro passo já tinha sido dado: eles conseguiram definir uma versão oficial da Bíblia em 401. O problema é que essa unidade desejada de unificação da fé católica nunca rolou. Por vários motivos.
O cristianismo foi tomando formato mais homogêneo e todo mundo que não concordasse com a versão da doutrina que Concílio X ou Concílio Y decidiu, passou a enfrentar um dilema: "eu tenho obrigação, perante a Igreja e o Divino, de pregar o que sinto, em meu âmago, ser a doutrina cristã pura". Não era, afinal, essa a mensagem evangelizadora do cristianismo primitivo? Alguns aceitaram insistir em sua própria leitura da mensagem cristã e aceitar a perseguição pelos católicos. Geralmente se tratavam de clérigos, que era verdadeiros líderes comunitários dessa época — na região da França, sobretudo, alguns começaram a criar subdivisões doutrinária e convencer muita gente, muita gente mesmo. Outros começaram a apontar abusos e corrupção dentro da Igreja Madre: o Primeiro Concílio de Latrão, de 1123, foi uma ocasião em que o papa Calisto II se tocou que a coisa estava ficando feia e logo os movimentos de reforma interna da igreja iria acontecer.
O que fizeram? Primeiro, pensaram um jeito de evitar que imperadores e reis se metessem nas decisões da Santa Sé (política e catolicismo estiveram juntos desde o começo como a gente viu). Declararam, para o próprio clero, que 'era proibido ser corrupto', algo que, alguns séculos depois, o Movimento Protestante de Lutero, Zwingli e Calvino julgou não ter sido suficiente. E decidiram matar todos os que pregassem variantes não-oficiais do catolicismo. Mas o momento de crise de representatividade da Igreja Católica atingiu níveis críticos no Sul da França, no ano de 1022, por causa de disputa doutrinária.
1022: A primeira queima em Orléans
Na cidade de Orléans, em 1022, houve a primeira queima de elementos desobedientes à autoridade católica. Para isso acontecer, foi preciso que um rei desse ouvido aos bispos e compartilhasse de sua visão de mundo. Então, temos o rei Roberto II da França. Ele subiu ao trono e se destacou como alguém bastante simpático aos bispos, justo em uma região em que embates doutrinários sempre foram muito fortes. Essa foi a receita perfeita para a primeira matança de hereges: as fofocas de corte logo viraram um comitê de investigação, e as pessoas que acabaram acusadas eram clérigos e leigos do círculo próximo ao rei. Um deles era o confessor da rainha, Étienne, e um líder religioso popular que disputava poder com os católicos, Lisoie. A puxação de tapete própria das cortes virou um dos primeiros episódios documentados de execução por fogo na Europa medieval. Nele, os culpados foram condenados como "dualistas" ou "maniqueístas", algo que não faz o mínimo sentido — essas eram doutrinas lá do século 2, que nem existiam mais em seus formatos originais. Foi aqui que o uso da fogueira se tornou um método comum de execução de hereges, simbolizando a purificação da alma que alguém perdido.
Eles se reuniam, de fato, em noites específicas, em uma casa para tal designada, cada qual com uma lâmpada na mão, e, como em uma ladainha, recitavam os nomes dos demônios, até que, de repente, viam o Demônio encarnar entre eles na forma de qualquer tipo de besta. […] o ato sexual era considerado um ato de santidade e religiosidade por eles. (Schmidt. Histoire et doctrine des Cathares ou Albigeois. Paris, 1849, vol. 1, p. 31)
O evento de Orléans é considerado um precursor da repressão às heresias que floresceriam nos séculos XII e XIII.
Século 13: Ordens dissidentes e a invenção da Inquisição
A partir do ano 1200, o sul da França e norte da Itália viraram centros de novas ideias religiosas: surgiram grupos de cristãos preocupados com a santidade da nem-tão-santa Igreja Católica. Para evitar perseguição, eles se reuniam secretamente, como ordens. Na mesma época surgiram ordens oficiais da Igreja para a formação de missionários — a Ordem Dominicana é de 1216; a Franciscana, de 1209. Seu objetivo era o mesmo de um milênio atrás: pregar o cristianismo por uma Europa iletrada que mal entendia a doutrina, ou não tinha muito interesse nela. Eles são os primeiros agentes coloniais.
Pois bem, os grupos dissidentes também começaram a se chamar de Ordem: surgiram os waldensianos, albigenses, cátaros, paterinos, petrobrussianos, fraticelli. Para a Santa Sé, eles eram hereges e sociedades secretas — sabe-se lá que tipo de rituais praticavam entre 4 paredes. Preencher essa lacuna ficou por conta a imaginação fértil de autoridade religiosas. Sente o drama de um documento da época:
Suas reuniões eram geralmente realizadas ao ar livre, em montanhas ou nas profundezas de algum vale solitário; o ritual era um tanto secreto, mas sabemos que à noite eles celebravam sua Eucaristia ou Consolamentum, ocasião em que todos formavam um círculo ao redor de uma mesa coberta por um pano branco. Inúmeras tochas eram acesas; o serviço era encerrado com leitura dos primeiros dezessete versículos de seu evangelho transfigurado. O pão era partido, embora haja uma tradição em que as palavras de consagração não eram pronunciadas de acordo com a fórmula cristã; em alguns casos, elas eram completamente omitidas.
Nada demais, certo? Essa foi a primeira versão da ideia do satanismo: as regras ditadas da Igreja para a eucaristia sendo invertidas e representando uma sátira dos atos de fala mágicos dos padres. O satanismo é uma arte da inversão satírica das solenidades do rito sacro. A coisa ficou violenta quando a Santa Sé inventou de dar poder de polícia para a Ordem dos Dominicanos: fundou-se um tribunal extraordinário como uma corte religiosa que respondia unicamente ao papa. Os termos 'inquisição' e 'inquisidores' adquiriram seu significado corrente na primeira metade do século XIII.
1486: O Martelo das Bruxas
Nada matou mais cristãos do que o próprio cristianismo — a princípio, esse foi um monopólio da Santa Sé. Se fosse para isolar um livro responsável pela paranoia em torno de bruxas, esse é Malleus Maleficarum (O Martelo das Bruxas, de 1486), do alemão Heinrich Kramer. Esse cara começou sua carreira como inquisidor perseguindo judeus em Waldshut. Depois ganhou as graças do papa Inocêncio VIII e conseguiu expandir suas influências perigosas, tornando o Sacro Império Romano-Germânico o lugar onde mais se queimou 'bruxas' na Europa — essa é a região atual da Alemanha.
Em seu manual de tortura contra satanistas, ele é categórico em afirmar: só existem bruxas mulheres; como a Eva do Jardim do Éden, é a mulher que perverte os caminhos do homem. Ele chega a fazer um malabarismo etimológico para provar que o termo latino para mulher, 'femina', significa algo como 'ser de pouca fé' (acho que ele quis unir os termos fide + minus, e isso não tem nada a ver). Nos poucos tratados que escreveu em língua vernácula, ele traduz o termo 'maleficium' por Schadenzauber: em alemão, 'feitiço para causar dano'. Surge a ideia de que a atuação dos hereges não é só de distorção do Evangelho: ela igualmente atua espalhando impotência, doenças, depressão nas pessoas via feitiços que envolvem manipulação de plantas, pedras e uma ativação de suas propriedades deletérias via fórmulas mágicas. Populariza-se aqui a ideia da bruxa como alguém que elabora feitiços contra alguém. Ela não é só mais uma herege, ela é uma secretária do Pai da Maldade.
É curioso que nem a Santa Sé levou esse livro a sério; ele foi incluído no Index Librorum Expurgatorius (a lista de livros proibidos pela Igreja Católica) em 1490 como publicação teológica violenta demais em suas prescrições. Isso só se deu via protestos de nobres de Ravesburg que atestaram: Heinrich Kramer é um dominicano pirado e precisava de cuidados médicos, não de um posto de autoridade. A própria Rainha Isabela, a Católica (a doida varrida que matou mais gente, por causa de religião, que a malária) considerou o livro "inadequado". Vai ter um episódio aí sobre a expansão do cristianismo pelos espanhóis nas Américas.
Pois bem, "Malleus Maleficarum" foi o manual de conduta de clérigos puritanos nos Estados Unidos recém-fundados. Poucos livros medievais tiveram maior impacto que ele. Sabe o episódio das Bruxas de Salem, no Massachussetts? Está diretamente ligado a influência nesse livro sobre pastores ingleses recém-imigrados para as Américas.
Bruxas e mulheres: a misoginia institucionalizada
Tornou-se uma interpretação corrente o fato de que muitas mulheres foram perseguidas como bruxas por não se adequarem às normas de conduta medievais. Você é feia demais e não se casou? Bruxa. Você é bonita demais e não aceitou se casar com qualquer um? Bruxa. Não vou chover no molhado e repetir algo que medievalistas e teóricas feministas estão falando há meio século; é mais interessante pensar em como a misoginia incorrigível dos católicos como um efeito colateral de seu instinto imperial — dessa coisa toda da colonização interna da Europa por Roma, que permitiu o continente virar um espaço vital homogêneo, mediante a imposição de uma religião que os europeus contemporâneos nem mais seguem à risca, o cristianismo. O cristianismo se vai, ficam seus preconceitos e seu impulso colonial.
E não dava para esperar que o clero, ensinado a repudiar a própria sexualidade como a parcela instintiva dentro de seus corpos, resultasse em uma cultura livres de neuroses. Mesmo quando católicos retratam bruxas, o resultado são mulheres deliciosas; eles não conseguem escondem a profunda atração que sentem por essa figura proibida. Isso é muito interessante, algo que não podemos passar reto.
Após as grandes navegações, hábitos de povos ameríndios foram associados às práticas satânicas atribuídas a bruxas. Uma fonte escocesa conta o seguinte caso: em Forfar, em 1661, Helen Guthrie e outras quatro bruxas exumaram o corpo de uma criança não batizada "e pegaram vários pedaços seus, como os pés, as mãos, uma parte da cabeça e uma parte das nádegas, e fizeram uma torta para que pudessem comer; para que, por esse meio, nunca pudessem fazer uma confissão de sua bruxaria." (G. R. Kinlooh. Reliquiae Antique Scoticæ. Edinburgh, 1848). Torta de criança, papo sério? O relato é particularmente próprio a relatos de canibalismo dos povos originários do Brasil (como o relato de Hans Staden, aquele covarde… ridículo); a bruxa virou um repositório de práticas que feriam o senso de decência do cristão provinciano, ao mesmo tempo em que era aquela que tinha contato com realidades um mundo de aventuras fascinante para si próprio (como o universo do Novo Mundo, desbravado pelas Grandes Navegações, quanto o universo da sexualidade reprimida que assolou a Europa até 1950±).
O legado colonial da mentalidade inquisitorial
É um erro achar que essa mentalidade da Inquisição tenha desaparecido. Desde que o cristianismo virou religião oficial do Império Romano do Ocidente, esse foi o fermento da mentalidade europeia: o apego imperial no fato de que os valores europeus seriam absolutos, e que cristãos deveriam se defender primeiramente de variantes de uma versão certa de sua doutrina (seja ela batista, católica, anabatista, pentecostal…): só depois eles pensariam no culturicídio implacavelmente violento do estrangeiro. O modelo católico pegou fora da Europa, primeiro, porque ele foi bem testado num contexto de colonização interna: levou um milênio para Roma colonizar a Grã-Bretanha, para tornar sacro o Sacro Império Romano-Germânico, para convencer os poloneses e russos e wotanistas escandinavos à base da porrada. E ela o fez empoderando os obedientes — se você, um indígena americano de 1530 se curvasse à imposição de fé cristã e se afastasse de sua vida tribal, você salvava sua pele e ganhava autoridade simbólica de um colonizador. Quer barganha melhor? No terceiro mundo, o pelego e o X9 conquistam poder aos olhos do conquistador somente se trair suas origens, e não tem nada que uma fatia do Brasil, Argentina e Uruguai faz melhor do que isso até hoje. Eu não estou julgando, tô constante um fato.
Voltando para o legado obscuro de Heinrich Kramer: ele foi reconhecido pela própria Santa Sé como um alucinado, mas suas ideias sobre heresias, bruxas e uma ameaça eterna de forças do mal e misoginia desenfreada foram ideias mais influentes do que qualquer coisa que qualquer papa disse desde então. Até 1928 tinha gente traduzindo "Malleus Malificarum", a sério mesmo, para línguas modernas. Pesquisa sobre um cara chamado Montague Summers.
Casos regionais: Bélgica e País Basco
Deixa eu tratar um pouco de história criminal belga: no século 18, a província de Limburg na Bélgica foi assombrada pelos tais Bokkenrijders (Cavaleiros da Cabra). Tratava-se de um grupo de bandoleiros que supostamente adoravam Satanás e voavam nas costas de cabras negras, realizando saques a igrejas e fazendeiros ricos. Foram os cangaceiros belgas; pela forma que os retratam, usavam máscaras com crânios e peles de animais para atiçar a superstição local e deixar o clero se borrando de medo.
Há registros de saques assim ocorrendo entre 1741 e 1794 — foi algo de várias gerações. Nesse meio tempo, eles se mesclaram ao folclore já extenso sobre bruxaria na região. Autoridades locais quiseram mostrar serviço e acabaram usando uma renca de indigentes como bode expiatórios (perdão pelo trocadilho) dos saques. Há, assim, um registro de 40 pessoas sendo executadas em público por um saque feito por só 4 bandoleiros. É a velha história: os métodos de investigação da Santa Igreja eram pautados em tortura; qualquer investigado admitiria não só um crime após 3 dias de masmorra, mas também que fizeram pactos diabólicos e voavam pela noite sobre cabras — eles diriam qualquer coisa que o agente da Inquisição quisesse forçar em cima deles.
Esse é um capítulo tardio da presença da Inquisição em pleno século do Iluminismo nos países que não chutaram os jesuítas a tempo de cargos de poder. A Bélgica era então domínio dos austríacos, e o tal drossaard Clercx era uma fatia do clero com atuação particularmente brutal na região. Calcula-se 450 execuções públicas no caso dos Bokkenrijders. Até hoje, é possível visitar masmorras que aprisionaram os tais filhotes do Diabo nos castelos de Herzogenrath e Hoensbroek.
Alguns historiadores que esses bandos podem nunca ter existido, sendo fruto de pânico social e perseguições injustas contra gente que roubava comida + ignorância de padre interesse em espalhar terror em suas paróquias. Para os belgas, até hoje se fala de pessoas com bokkenrijderbloed — que sofrem de estigma por serem membros de uma família pobre e, por isso, são visadas pela polícia.
As Bruxas de Zugarramurdi (1610)
Viajando para o país Basco, vizinho à Espanha, temos o caso das Bruxas de Zugarramurdi de 1610, que representou uma virada no trato da igreja espanhola frente a supostas bruxas. A gente pensa a Inquisição espanhola como a mais cruel e delirante quando o assunto é queimar bruxas, mas estatisticamente alemães e belgas queimaram mais mulheres do que qualquer outro país europeu sob alegação de satanismo e feitiçaria; os espanhóis eram bons mesmo em aniquilar indígenas. Já contei um pouco sobre a histeria dos alemães medievais ao falar do 'Malleus Maleficarum'; vou falar um pouco sobre o caso da pequena vila Zugarramurdi, na região basca.
Ali há uma série de cavernas usadas para fins religiosos desde tempo imemoriais, de forma que a ameaça invisível de adoradoras de deuses estranhos sempre povoou a superstição local. Em 1609, superstição virou investigação criminal quando uma tal Maria de Ximildegui confessou sua participação em um sabá de bruxas, algo que os bascos chamam de 'akelarres'. Sua confissão respingou nos moradores dos arredores, resultando na prisão de ± 300 pessoas. Mortes de crianças e doenças costumeiras começaram a ser atribuídas às supostas bruxas; elas estariam criando feitiços para espalhar caos. Os relatos históricos mencionam orgias, transformações de pessoas em animais, uso de poções mágicas. Grande parte das acusações foi motivada por disputas pessoais ou desentendimentos, é claro, e a Igreja reconheceu isso contra todas as expectativas. Em contraste com os julgamentos europeus, a Inquisição Espanhola conduziu o caso de forma comedida. O tribunal de Logroño liderou o julgamento, que culminou em um grande auto-de-fé em 1610. Então, apesar das centenas de acusadas, apenas 11 pessoas foram condenadas à morte por espalhar caos na comunidade. A maioria dos outros acusados foi libertada após a Inquisição concluir as acusações como infundadas. O termo "auto-da-fé" ganha um significado novo: em vez de queimar a rapaziada, seria organizado um ritual público de purgação dos pecados da comunidade.
Esse julgamento marcou uma transição na Inquisição, que passou a adotar uma postura mais cautelosa em relação à bruxaria. Hoje a vila tem um Museo de las Brujas que recomendo vocês visitarem se passarem por lá.
Sacrilégio e a imaginação perversa dos inquisidores
Há uma ligação curiosa entre a blasfêmia e a sátira. Qualquer teólogo católico dirá que a maior transgressão de todas é o pecado contra o Espírito Santo. Mas isso é uma abstração; você só pratica esse pecado caso já seja cristão e leve a sério o que padres têm a dizer. De um ponto de vista jurídico, o que matou dezenas de milhares de pessoas durante a Inquisição foi o sacrilégio: você inverter os rituais da missa para fins de tiração de sarro. Pois é, teatralizar o rito é a ofensa máxima; daqui vem uma inimizade histórica entre a Santa Sé e a instituição do teatro.
Assim, para a Igreja Católica, é mais problemático rezar uma missa pelado, ou declamar a liturgia imitando os latidos de um cachorro, ou então fornecer uma hóstia feita de sangue menstrual — isso é mais grave do que adorar outros deuses. O burlesco levava pessoas à fogueira na Europa, sobretudo no Sacro Império Romano-germânico, a um número estimado entre 80.000 e 100.000 pessoas ao longo de vários séculos: metade disso ocorreu na atual Alemanha.
Psiquiatras hoje trancariam boa parte dos inquisidores num hospício por um motivo singelo: suas mentes deviam ser mais pervertidas e criativamente profanas do que a de qualquer bruxa. Em suas torturas, ao acusar os réus de sacrilégio, ELES ajudavam a dar forma a uma cultura da profanação que nunca encontrou paralelo na realidade. Eu não devia estar dizendo isso, mas ninguém jamais levitou no meio da floresta; cavalgou em cabras pretas voadoras ou beijou o cu inexistente de Satanás; tudo isso é produto da imaginação de inquisidores pagos pela Santa Sé. Se liga em um 'relato' de um inquisidor francês do século XV:
A missa é dita sobre um altar quebrado e profanado em alguma igreja em ruínas ou deserta, onde corujas piam e murmuram […]. O padre deve chegar lá tarde, acompanhado unicamente por um acólito de vida impura e maligna. Ao toque das onze, ele começa; a liturgia infernal é murmurada de frente para trás, e o cânone a reza com uma careta e um sorriso de escárnio; ele termina assim que soa a meia-noite. […] Nenhum vinho é consagrado, mas sim água salobra, tirada de um poço onde foi descartado o cadáver de um bebê não batizado. O sinal sagrado da cruz é feito com o pé esquerdo no chão. (J. F. Bladé. Quatorze superstitions populaires de la Gascogne. Agen: 1883, p. 16 et seq.)
Os detalhes do que seria uma inversão 100% perversa dos ritos sacros se tornaram parte da cultura de demonologistas. Daí veio toda uma série de blasfêmias que nenhuma imaginação irreligiosa teria conseguido conceber: ela é produto da superstição de abades e bispos que entendem o rito, antes de tudo, e perderam horas e horas concebendo o ápice da perversidade. Então, num sabá de bruxas, antes de a orgia começar, haveria uma simulação do rito cristão. Os infiéis beijaram o cu de um gato preto; comeria carne de bebês não batizados durante a sagração; a liturgia seria dita de frente para trás, ou em vozes de animais; o padre satânico peidaria e mijaria num buraco no chão e de lá retiraria a 'água benta' com a qual aspergeria a congregação; haveria animais sujos dentro do templo; em vez de benzer os infiéis, ele terminaria a missa negra mandando-os tomarem no rabo.
1532: O Código Carolina e a caça às bruxas institucionalizada
Eis o porquê de os alemães terem queimado mais bruxas do que qualquer outro povo: em 1532 saiu o Constitutio Criminalis Carolina, o código penal unificado promulgado pelo Kaiser Karl V. Ele consolidou práticas legais e punições a serem aplicadas no Sacro Império Romano-Germânico e estabeleceu padrões para 'crimes gravíssimos': aqui, heresia e bruxaria entrava na mesma categoria de homicídio e estupro. As consequências desse descompasso técnico se viu nos anos seguintes:
- o Carolina afirmava que as autoridades seculares deviam punir os hereges condenados pela Igreja. Então, beijou o cu do gato preto? A polícia vai atrás de você, não mais um inquisidor, e a punição mais comum era a morte na fogueira. Além da pena de morte, os bens dos hereges condenados eram confiscados e muitas vezes revertiam para a Igreja ou para as autoridades locais; não por acaso, o número de tribunais de inquisição multiplicava em dada década que os nobres perdiam dinheiro em alguma aventura financeira, ou quando colheitas eram ruins. Precisa aumentar seu patrimônio? Espalha uma histeria em torno de bruxas; você não tem nada a perder, só seus plebeus;
- O Carolina condenava "superstições", o que é algo engraçado vindo de quem acredita na concepção imaculada e em anjos;
- O código foi promulgado em meio às tensões religiosas da Reforma Protestante e da Contrarreforma Católica, e aqui a coisa ficou violenta. Tanto protestantes quanto católicos acabaram aplicando as disposições do Carolina para perseguir seus inimigos religiosos. Quando se matou hereges? Justamente entre 1580-1650;
- Como o Sacro Império era muito descentralizado, os julgamentos e execuções seguiam interpretações locais. Em algumas regiões, como na Bayern e Württemberg, as disposições contra bruxaria foram aplicadas com muito mais rigor.
O Carolina recebeu sátiras, porém. O teatro popular alemão, com as Fastnachtspiele, refletem a crítica popular e intelectual às práticas jurídicas e às injustiças associadas ao uso indiscriminado de leis como o Carolina, particularmente nos julgamentos que envolviam tortura ou acusações absurdas. Falo a respeito disso em seguida por esse foi o primeiro momento de resistência ao trem descarrilhado que foi esse movimento de perseguição a bruxas. Isso não fazia bem pra ninguém; produzia uma sociedade doente, violenta, marcada por traições e desconfiança desnecessária. Um dramaturgo chamado Hans Sachs entrou aqui como figura de conscientização deste problema.
Resistência cultural: Hans Sachs e o teatro satírico
Hans Sachs foi o rockstar do século 16 e um mestre dos Fastnachtspiele — peças carnavalescas e geralmente provocadores dos poderes instituídos. Elas retratavam caricaturas de juízes corruptos ou incompetentes, além de zombar da aplicação desmedida das leis em terras alemãs. Foi via literatura, primeiramente, que se expôs o absurdo da tortura como método de obtenção de verdades. Em Hans Sachs, confissões eram representadas como farsas jurídicas, coordenadas por ignorantes. Se ele retratasse uma farsa com membros do clero, provavelmente iria para a fogueira; então aproveitou que o código Carolina expandiu poderes de polícia contra hereges para autoridades seculares, e satirizou ela. Hans Sachs era um homem esperto.
Exemplo de cenas: lemos sobre personagens forçadas a confessar crimes como "voar em cabras" ou "vender a alma ao diabo" para escapar de punições ainda mais terríveis. Tambem com ele surge uma crítica ao confisco de bens dos acusados, representado como um motivo oculto para as histerias em torno de satanismo.
Disseram que eu poderia voar pelos ares com uma vassoura, impulsionada por um espírito obscuro. Mas essa bobagem me soa mais como manifestações de loucura do que como a verdade que puderam arrancar de mim via tortura. [Sie haben gesagt, ich könne durch die Lüfte fliegen,/Mit einem Besen, ein schwarzer Geist möge mich treiben./Doch solch ein Unsinn gleicht mehr eines Narren Streich,/Als der Wahrheit, die man mir peinlich entreißen mag.])
Então vem "Die Wittembergisch Nachtigall" (O Rouxinol de Wittenberg), uma peça brutal contra o clero, e simultaneamente uma rasgação de seda para Lutero e os protestantes; a ironia da história quis que, dali 170 anos, seriam eles que estariam queimando velhas e jovens no Novo Mundo, em nome da pureza da fé cristã.
O caso francês: o Affaire des Poisons e a corte de Luís XIV
Quando a gente viaja para um lado da Europa onde o poder político foi mais forte, a França, vemos como o clero já era uma força incontrolável observando a corte de Luís XIV. Esse camarada, a figura máxima do absolutismo monárquico, só achou poder controlar a França até entender a força que o clero exercia sobre seus súditos. Afinal, ele criou Versalhes para manter a aristocracia por perto, na coleira, e reinar como monarca absoluto: eis Luís XIV como o Rei Sol. Mas então veio contra-ataque do clero com o Affaire des Poisons (1677–1682), o grande escândalo de bruxaria da época. Ele sugeria um submundo que conectava membros da aristocracia a feiticeiros, abalando profundamente a corte de Luís XIV.
Tudo começa com o rei pulando a cerca: sua amante era Madame de Montespan, uma mulher sem respeito pelo clero. Como amante real, ela representava uma afronta aos valores católicos. E Montespan tinha uma rival, Madame de Maintenon, uma antiga pretendente do rei, carolíssima e amiga do alto clero. E eis que a primeira, a irreligiosa, foi acusada como bruxa.
A França sempre foi terreno fértil para as artes ocultas; Paris contava com ± 400 consultórios de astrólogos e adivinhos cuja clientela era formada por membros da nobreza. Quando descobriram que a Madame de Montespan consultava uma adivinha, La Voisin, os inquisidores pularam em cima.
La Voisin foi presa em 1679 e torturada. Ela acabou 'confessando' haver uma rede oculta no Palácio de Versalhes onde órgãos e ossos de crianças eram usados para a decocção de poções mágicas. No processo, 140 crianças são explicitamente nomeadas: algumas autoridades afirmam até 800 vítimas. Os ocultistas se dariam ao trabalho de sequestrar tantas crianças em nome do amor: as cerimônias seriam realizadas a mando da Madame de Montespan para que o rei lhe permanecesse sempre fiel e, por fim, a elevasse ao trono.
La Voison foi queimada na fogueira em 1680. Expediram-se 367 mandados de prisão. Aqui os números ficam estranhos. Só 36 pessoas são executadas (mesmo que centenas tenham sido condenadas, pela Igreja, como satanistas comedoras de criancinhas). 23 se exilaram. Entre as condenadas estava a amante indesejada do rei. Madame de Maintenon, sua nemesis, se tornaria a segunda esposa de Luís XIV em um casamento secreto. Como amiga do clero, ela convenceria o rei, dois anos depois, a promulgar um decreto que bania do reino os bruxos, astrólogos e adivinhos. O clero vence.
Protestantismo e caça às bruxas: o caso alemão
Daí a gente pensa: mas o protestantismo inseriu uma dose de racionalidade na fé cristã, certo? Para explicar porque não foi o caso, eu me volto à Alemanha agora. Século 16.
No Norte alemão surgia, de fato, uma nova proposta para o cristianismo: Lutero já estava pregando a suposta purificação da doutrina desde 1517, mas em um aspecto ele e os inquisidores católicos concordavam plenamente: na existência conspiracionista do Diabo e na possibilidade de haver uma bruxa atrás de cada mulher. Lutero era um fanático milenarista e, uma vez que conseguiu poder e ganhou uma ala de sua fé no Sul, sob a influência de Philipp Melanchthon, a Igreja Luterana só intensificou a caça às bruxas. Uma vez que se instalava em dado condado ou reino, o novo clero tinha que mostrar serviço e queimar mulheres era um jeito eficaz de fazê-lo e aumentar os cofres dos monarcas para lutar na Guerra dos Trinta Anos (lembremo-nos: uma pessoa condenada por bruxa tinha todos os seus bens transferidos para a Igreja e o Estado; esse foi o esquema-para-ficar-rico-fácil do século 16, tipo um Jogo do Trigrinho que funcionava).
A Bíblia tinha acabado de ser traduzida para o alemão e foi aberta a toda sorte de interpretações para uma população sem treino hermenêutico. Cá entre nós, a virtude da Bíblia Sagrada nunca foi sua clareza e unidade, de forma que trechos do longínquo Êxodo 22:18 como "Você não deve deixar o feiticeiro viver" caiu no gosto dos novos inquisidores luteranos. Eles não eram mais membros do clero ou Ordens monásticas sancionadas pelo Vaticano; eram autoridades civis. Eram a polícia.
O Condado de Lippe foi um tanto influenciado por esse clima da Reforma Protestante e pelas ideias de Lutero. Durante o século XVI e XVII, a chamada "luta contra o diabo" tornou-se uma parte central da vida social, e ceifou ± 300 vidas. Isso equivale a 1% da população local.
Conclusão: um legado de violência e controle social
A caça às bruxas foi, em sua essência, um projeto de controle social, de consolidação de poder e de uniformização cultural. Começou com a imposição do cristianismo como religião oficial do Império Romano, passou pela perseguição sistemática de dissidentes e pagãos, e culminou em uma verdadeira guerra contra as mulheres que desafiavam as normas sociais. A histeria coletiva, alimentada por interesses econômicos (confisco de bens) e políticos (centralização do poder), criou uma máquina de morte que funcionou por séculos.
O mais perturbador é perceber como essa mentalidade inquisitorial — com seu maniqueísmo, sua intolerância, sua misoginia e sua sede por controle — não desapareceu com o fim das fogueiras. Ela se transformou, se secularizou, mas continua viva em diversas formas de perseguição e exclusão social até os dias de hoje. Reconhecer essa continuidade histórica é essencial para entendermos as raízes profundas de muitas das violências e injustiças que ainda marcam nossas sociedades.
Nota final
Este texto é um resumo baseado em pesquisa histórica sobre a caça às bruxas na Europa. Para um estudo mais aprofundado, recomenda-se consultar obras especializadas sobre o tema, incluindo estudos sobre a Inquisição, a história das mulheres na Idade Média e a formação do Estado moderno.