Escrito por F.V.Silva em 27/05/2024
O último episódio nos pôs contato com um dos desfechos da crise de espiritualidade do Império Romano: também esta crise acabou em violência e divisão. Vimos como o Cristianismo se unificou no século III por esforços de Santo Eusébio e Constantino, e tomou armas para combater manifestações religiosas díspares, por menores que fossem, como se se tratassem de uma ameaça a sua existência: daqui surgiu a caça às heresias, então a caça às alegadas bruxas, então o expansionismo da fé cristã como uma das justificativas por trás do colonialismo.
Hoje eu conto algo sobre o outro lado: como os filósofos platônicos reagiram ao cristianismo durante o reinado de Diocleciano, como isso se relacionou a três perseguições a comunidades cristãs dentro do Império Romano -- e para falar de tudo isso partirei do texto monumental de Porfírio de Tiro, geralmente publicado sob seu título latino: Contra Christianos (originalmente ele se chama Kata Kristianôn, ΚΑΤΑ ΧΡΙΣΤΙΑΝΩΝ e foi escrito em grego): este é um livro que merece atenção na história da filosofia, já que, em pleno século 3, adianta boa parte das objeções filosóficas veiculadas até hoje contra o cristianismo e sua cultura. Ele não é um livro que advoca o ateísmo, mas antes apela aos gregos que não abandonem o culto tradicional ao seu panteão divino, formado por deuses como Afrodite, Zeus, Atena -- aqui, é muito curioso que Porfírio chame adeptos daquela nova religião cristã de 'ateístas' (eles, afinal, eram pessoas que estavam abandonando os deuses tradicionais do mundo greco-romano para louvarem um homem de carne e osso, Jesus Cristo, atribuindo-lhe divindade). Esse livro também traz críticas à falsificação textual dos livros proféticos dos hebreus; põe em jogo a seriedade dos líderes cristãos primitivos como Paulo e Pedro, e formula um questionamento acerca da natureza divina de Cristo que hoje, quase 2000 anos depois, não foram tão inovados assim. Argumentos para o ateísmo existem aos montes por aí, mas Porfírio, um filósofo obscuro nascido na região que atualmente é o Líbano, meio que adiantou uma enorme parte deles em um só texto -- um texto visto como o mais perigoso e amaldiçoado dos tratados anticristãos, e fadado a queimar na fogueira por decreto a partir do governo do imperador Constantino.
Hoje temos disponível uma compilação de 132 fragmentos de Contra Christianos a partir de citações de autores bizantinos e da era moderna -- como a obra de Porfírio só foi preservada em fragmentos transmitidos exclusivamente por seus detratores, todas as edições modernas deste texto são o resultado de processos de compilação cuidadosa que só começou no final da Primeira Guerra Mundial -- pois é, levou 18 séculos para este que foi um dos livros mais profanos aos olhos da Igreja Cristã viesse à luz em uma edição moderna. Eu parto da edição mais completa dele, a edição alemã de 2016 organizada pelo Matthias Becker e publicação pela De Gruyter, e começo dizendo quem foi Porfírio de Tiro.
Matthias Becker. Porphyrios, Contra Christianos. Göttingen: De Gruyter, 2016. (Texte und Kommentare. Eine altertumswissenschaftliche Reihe, Band 52)
Quem foi Porfírio?
A história de vida de Porfírio chegou a nós nas palavras de quem o detestava; ela é contada via difamação, por pessoas que não o conheceram pessoalmente -- a principal delas é o historiador eclesiástico Sócrates de Contantinopla. Ele iniciou a ideia de que Porfírio, em sua juventude, teria sido um cristão. [ver p. 6] Ele era parte da elite romana, mas contra todas as expectativas, sua família professava uma religião que era da plebe e de minorias judaicas. E diz a história que depois de se envolver em uma briga com cristãos em Cesareia (e tomar uma surra), Porfírio é tomado por uma 'ira' que 'nunca mais conseguiu suportar' e consequentemente deu azo a seu estado de espírito depressivo, acabou largando a religião e virou um apóstata. Seu ódio se tornou tão grande que ele se pôs a escrever contra os cristãos: para Sócrates de Constantinopla, essa virou a missão de vida de Porfírio. [ver p. 7]
Hoje, nós somos melhor munidos de conhecimento da demografia do Império Romano, e isso tudo soa muito improvável. Temos registros de que Porfírio nasceu na elite falante de grego (e quando o cristianismo chegava às elites, era geralmente em meio de mulheres, que o professavam como uma religião carismática). E toda a carreira de Porfírio esteve ligada a estudos de filosofia platônica, de observação à religião olímpica dos gregos. Então, no décimo ano do reinado do imperador Galiano (253-268 d.C.) -- ano de 263 d.C. -- Porfírio partiu para Roma, acompanhado por um certo Antônio de Rodes, onde continuou seus estudos com o neoplatônico Plotino, de quem já falamos um bocado (c. 205-270 d.C.). Nessa época, Porfírio tinha 30 anos e Plotino, cerca de 59 anos. Antes ele tinha estudado com o gramático Longino e com ele adquiriu conhecimento profundo de estilística, retórica e línguas que mais pra frente lhe serviram para identificar algumas inconsistências no texto sagrado dos cristãos -- a gente já chega lá. O contato com Plotino marcou uma 'reorientação filosófica' para Porfírio, que hoje entendemos como uma reorientação para uma teologia de fundo platônico que foi a grande inovação daquela época. Neste série a gente chega mais perto de completar uma linha sucessória, digamos, formada por quatro grandes nomes do neoplatonismo: o egípcio Plotino -> o libanês Porfírio -> depois vem o sírio Iâmblico e o bizantino Proclo Lício, dos quais ainda temos que falar, e propagaram versões muito mais místicas da doutrina platônica.
Porfírio ainda está no começo deste desenvolvimento de uma filosofia total do cosmos para uma religião ritualizada, a tal da teurgia platônica: o que ele tem a dizer sobre religião é fundamentalmente conservador. Ele não propõe nada próprio, como faria um criador de doutrinas, mas simplesmente defende o legado da cultura milenar dos gregos (para quem Platão representava o ponto mais alto de sofisticação) e condenava o crescente cristianismo como uma ameaça a esse legado.
Essa convicção pessoal de Porfírio o liga, em muitos sentidos, ao que ele aprendeu com Plotino. Porfírio virou o principal discípulo de Plotino em dado momento e, no início do século IV d.C., aos 68 anos, transcreveu e publicou os escritos de seu mestre, as Enéadas, deixando como prefácio a única biografia que chegou a nós de Plotino -- não teríamos absolutamente nada de Plotino, um dos maiores filósofos do século 3, sem o trabalho editorial de Porfírio. Ele é de suma importância na história da filosofia já por isso.
Existe um trecho de Enéadas 2.9, que Porfírio intitulou: CONTRA OS GNÓSTICOS. Título alternativo é: "contra aqueles que afirmam que o Criador do cosmos e o próprio cosmos seriam malignos". No contexto de Plotino, ainda era muito confusa a diferença entre um gnóstico e um cristão. Por isso ele colocou todas essas doutrinas no mesmo balaio, e julgou-as como sistemas de dogma que não partem de uma consideração rigorosa de princípios primeiros da filosofia. Os próprios platônicos só chegavam a alguma conclusão sobre a vida humana e seu papel no mundo após teorizarem sobre o que há de mais estrutural na existência: a Natureza, o planeta Terra, o universo constituem um todo que está ligado a leis da física -- ao fato de que o Sol nasce e se põe regularmente, de que a movimentação da seiva nas plantas obedece a regras internas sem precisar que ninguém as imponha; de que os próprios seres humanos obedecem padrões comportamentais compartilhados, de forma que é normal a crianças pequenas berrarem por alimento, a adolescentes agirem confusamente, a adultos serem cruéis, e a velhos serem carrancudos e resignados. Tudo é regido por leis inefáveis, por um lógos coordenador da existência -- essa é uma lei infinitamente complexa da dinâmica misteriosa do universo, nós seres humanos só conseguimos ter um lampejo muito superficial dela quando usamos nossa razão, mas eis o fenômeno da vida e a origem de todo sublime espiritual: a natureza é uma máquina autocontida, magnífica e assustadora ao mesmo tempo, e isso é deus para Plotino. A materialidade, a carnalidade e a deterioração inerentes ao mundo físico não são coisas ruins -- são parte integral do todo da natureza. Quando platônicos observam os gnósticos, por exemplo, condenando a carne e a materialidade deste mundo como coisas inferiores -- desprezando o próprio mundo natural, os bichos, as plantas em prol da hipótese longínqua de uma existência num plano espiritual junto ao Divino, Plotino vai à loucura. Ele qualifica isso como uma arrogância imperdoável de minorias conquistadas pelo Império Romano que estavam tentando impor uma doutrina de desprezo pelo corpo que não tinha qualquer base teórica bem fundamentada. Eles sequer justificavam a racionalização por trás de seus dogmas.
Eu vou citar Enéadas 2, IX, 9 para a gente entender também que a briga por doutrinas espirituais constituía uma tensão entre grupos que conviviam no Império Romano. Sente o drama:
"Encontramos imbecis que aceitam tais ensinamentos [de que têm um lugar reservado junto aos deuses, numa esfera supraterrena] ao mero entoar das seguintes palavras: 'Você, você mesmo, é mais nobre do que todo o restante; mais nobre que os homens, mais nobre mesmo que os deuses". A audácia humana é deveras imensa: um homem modesto, contido e simples escuta: "você, você mesmo, é filho de deus: aqueles a quem você costuma venerar, aqueles seres cujo culto eles herdaram da Antiguidade, nenhum deles é seus filhos; você, sem erguer um só dedo, é mais nobre do que o próprio céu."
Existe uma porção de tensões sociais por trás disso tudo: a religião e a filosofia dos gregos, que tinha sido absorvida por elites romanas, era muito pautada no cultivo de virtudes e habilidades. Ser alguém que compactua com essas doutrinas era resultado de anos de treinamento, esforço, sacrifícios pessoais -- até que você podia ser reconhecido como um estóico, um platônico etc. Para ele, a briga com o gnosticismo (e o cristianismo primitivo, por extensão) tinha um fundo moral. Ele os via como fórmulas mágicas de salvação, que engavam o povo estúpido e preguiçoso, e estragavam a qualidade da vida comunitária do maior Império já surgido na história mundial.
Porfírio vai além, e representa uma guinada nessa crítica. Plotino critica os cristãos gnósticos sem sequer citá-los; já Porfírio faz sua lição de casa. Ele possuía conhecimento profundo de textos cristãos, e cita extensivamente a partir deles; ele deve ter sido o melhor leitor do livro de Daniel de sua época, por exemplo, que estava disponível por ali em 4 fragmentos distintos. Então ele tinha acesso a material que hoje compõe o Novo Testamento, e estava interessado em confrontar os textos com suas fontes. Mais do que um ato de arrogância de plebeus, para Porfírio o cristianismo era uma ameaça à estabilidade cultural do Império Romano. A própria base civilizacional desse grande império -- que era greco-romana, não hebraica, não persa -- estava sob ameaça de uma religião pouco filosófica, pouco interessada em criar indivíduos de fato éticos e rigorosos com seu comportamento. E aqui a gente entra nos detalhes de Contra Christianos.
O CRISTIANISMO COMO UMA RUPTURA
[41] Porfírio elaborou em sua obra crítica ao cristianismo propondo um cenário de antes e depois: o momento em que o cristianismo começa a ganhar força no século II +- serviu de ruptura na história: ele marca o declínio da continuidade das rotinas religiosas tradicionais de uma religião cívica (que é o louvor aos imperadores romanos) e da religião olímpica (Zeus, Afrodite, Hefesto... vocês conhecem). As práticas rituais de todo o mundo mediterrâneo até Ásia eram pautadas em identidade étnica: os hebreus tinham o judaísmo como uma mescla de doutrina metafísica e um edifício interpretativo de sua história e costumes. Um persa, digamos, não tinha nada que se meter no judaísmo, por exemplo -- converter-se à religião do outro não fazia muito sentido naquele universo multicultural do Império Romano. Um persa seguiria zoroastrianismo, que era a religião de seus antepassados, e reflexo de seus costumes e valores civis. E por aí vai.
O cristianismo foi, de fato, o que Porfírio já desconfiava: uma religião muito diferente de tudo o que tinha surgido por não estar mais ligada a uma etnia só (ele abarcava quem quer se entregasse a fé cristã e reconhecimento individual da divindade de Cristo), e ela era veementemente expansionista. Ela negava a validade de qualquer outra profissão de fé, seguindo uma tendência lá de trás dos hebreus, que pintavam os deuses dos babilônicos e egípcios como demônios: esses povos antiquíssimos teriam vivido milênios e milênios no engano de estarem servindo a deuses providentes, quando estavam adorando picaretas cósmicos. Com más intenções, inclusive. Só o deus dos hebreus seria verdadeiro; os cristãos alteram o quadro de atuação das forças espirituais para dizer que, com eles e o surgimento do Messias, a narrativa cósmica se atualiza. Eles passariam a carregar a verdadeira mensagem de salvação.
Deixe eu citar fontes, para não parecer estar atribuindo uma arrogância aos cristãos à toa. A gente vê em Orígenes de Cesareia uma obra chamada Contra Celso, da década de 240 d.C. Orígenes destaca que Jesus, através de seus ensinamentos, trouxe a forma correta de adoração a Deus, que Jesus era 'o único caminho de adoração a Deus'. Por isso, os cristãos não deveriam participar de 'festivais públicos'. O politeísmo seria 'ímpio' aos seus olhos, as imagens dos deuses uma obra humana insana e nada [59] além do que matéria, e todo o culto tradicional uma adoração de demônios, insana e irracional.
Então a gente parte para os próprios evangelhos, e a transformação do lógos, o princípio de racionalidade platônica, na figura de Cristo. Em João 14:6, temos uma expressão explícita do que teólogos chamam de 'exclusivismo salvífico cristão'. Essa é uma reivindicação do absoluto universal dos gregos para a causa de uma religião nova: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim" é o que diz Jesus Cristo para seus discípulos na ocasião. Essa é a declaração de que a redenção da vida humana só poderia ser obtida em Cristo (uma entidade histórica, um homem de carne a osso pra quem não acredita na sua divindade), e que entrava em contradição direta com a própria perspectiva universal religioso-filosófica, não-exclusivista dos greco-romanos, bem como com sua doutrina de salvação espiritual-ascética, filosoficamente fundamentada.
Isso era profundamente irritante para alguém como Porfírio. O Império Romano dependia de um respeito mútuo entre religiões -- essa era uma questão de ordem social naquele momento do século 3. Esse respeito mútuo nem sempre era o que ocorria -- há registros de cristãos matando platonistas, de imperadores perseguindo cristãos por não se ajoelharem a eles, e por aí vai -- mas a frágil estabilidade de um império multiétnico como aquele dependia disso. Caso contrário não existiria mais império.
Daí deriva uma hipótese importante sobre Contra Christianos: este foi um texto escrito para governantes de Roma. Não era tipo um texto que você como cidadão por pegar na biblioteca e ler.
Tem motivos para pensarmos assim, e estou me pautando na página 39 da compilação do Matthias Becker: "A composição social da escola de Plotino em Roma, que incluía membros politicamente ativos e senadores, bem como os contatos de Plotino e seus discípulos nos mais altos círculos políticos, inclusive com o imperador, transmitem não apenas uma ideia da conexão dos colegas de estudo de Porfírio com detentores de cargos políticos, especialmente durante os anos 250 e 260, mas também com quem Porfírio esteve ou poderia ter estado em contato desde seu período de estudos em Roma." Assim, tudo indica que Porfírio endereçou esse texto aos representantes da elite política da época. E ele não começa, como Plotino, dizendo por que ele discorda da doutrina X e Y dos cristãos. Não importa tanto o que ele pensa. Para ele, o problema inicial do alastramento do cristianismo no reinado de Diocleciano (284-306 d.C.) era seu "comportamento ilegal" -- essas são suas palavras.
Porfírio começa condenando um pai da Igreja, ORÍGENES: esse camarada teria sido o primeiro grande líder a barganhar seu estilo de vida cristão com um comportamento perigoso para a ordem imperial. Cristãos, por terem uma lealdade maior ao seus bispos do que aos governantes, seriam rebeldes em potencial. Principalmente a partir do século II d.C., quando a religião cristã passou a ser cada vez mais percebida como uma entidade independente do judaísmo, e o cristianismo fez alastrar na vida pública opiniões repletas de superstição e ateísmo. Eles não argumentavam a partir dos interesses coletivos, ou da filosofia ética praticada na época; seus argumentos eram absurdos a ouvidos gregos. [49] Por volta de 200 d.C., por exemplo, Tertuliano relata que os cristãos eram tachados por elites romanas como 'profanadores da religião' e 'inimigos do Estado', o que ilustra um dado que quem está acompanhando esta série sabe bem: no Império Romano, lealdade cívica estava intimamente ligada a valores e práticas religiosas locais.
Tertualiano, pois bem, estava relatando um momento em que cristãos formavam um grupo de status social baixo, que formava 'associações secretas contra a ordem legal' mas eram relativamente inofensivos. Na época da redação de Contra Christianos, eles já formavam uma entidade poderosa no Império. [51] Período do reinado de Diocleciano (284-306 d.C.) -- o cristianismo parece ter sido atraente principalmente para as mulheres pertencentes à ordem senatorial. Ele era uma religião de esperança, com rituais emotivos e catárticos; ele provia a mulheres isoladas em sua posição de poder um vínculo com uma comunidade mais ampla, composta por suas próprias súditas e súditos. Esse foi outro fator que perturbou as elites romanas: aquela religião plebeia estava entrando em suas casas.
[53] A vida de Porfírio (234 a 305 d.C.) abrange não apenas três das mais significativas perseguições contra cristãos, mas também as primeiras perseguições de caráter supra-regional, e organizadas pelo Estado. Elas não foram motivadas diretamente por ele, mas derivam da mesma preocupação que ele está expressando: imperadores começaram a ver a desobediência de alguns de seus súditos como uma afronta a sua autoridade.
A primeira delas foi o Imperador Décio (249-251 d.C.), que no outono de 249 d.C. expediu um 1º édito de unificação ritual: a interesse da unidade imperial, todos os romanos, em conjunto, devia se unir para implorar o favor dos deuses para a proteção e preservação do Império. O imperador julgou que a ausência de cultos aos deuses tradicionais já tinha se prolongado por 'muitos anos', e a culpa residiria na impiedade dos súditos das províncias. Aqui vem a explicação mágica de Décio, que não tem mais nada a ver com Porfírio: Houve o caso da epidemia que teria eclodido pouco antes do advento da morte de Plotino. Para o imperador supersticioso, aquele era um sinal comprovado de que o Império perdia os favores de seus deuses pagãos -- havia trocado deuses efetivos por um messias falsário. Isso é argumentação de bode expiatório que os cristãos, mais para frente, repetirão para perseguir seus próprios inimigos. Ela já tinha começado durante o governo de Nero (54-68 d.C.), e expõe de forma muito drástica o potencial autodestrutivo do Império Romano.
Com isso, o imperador estava buscando também uma renovação da lealdade de todos os habitantes do império, particularmente das elites locais. O foco aqui não foi a execução em massa, mas a apostasia de líderes. A maioria esmagadora de cristãos cedeu às exigências imperiais, e esses indivíduos foram poupados. As execuções que ocorreram foram de figuras de liderança e daqueles que se recusavam publicamente a obedecer. As estimativas para mortes são de algumas centenas por todo o Império -- nem se compara com as dezenas de milhares nas caças às bruxas, ou dezenas de milhões de mortes de pagãos do Novo Mundo. Segundo o testemunho de Eusébio, o papa Fabiano de Roma, o bispo Alexandre de Jerusalém e Babitlas de Antioquia não se curvaram aos deuses cívicos, foram encarcerados e, por fim, morreram como mártires. Santa Ágata da Sicília morreu aqui também. A instituição do martírio ganha corpo como uma ideia formadora da Igreja Católica. Simulando o sacrífico de Cristo pela humanidade, precisou que líderes do clero morressem para que a Igreja Católica surgisse como representante política justificada do divino.
(2) [54] Segunda perseguição aos cristãos foi de 257 d.C. Um segundo édito, formulado de forma mais severa, do ano 258 d.C., previa que os que se recusassem a sacrificar, entre sacerdotes, diáconos e bispos, deveriam ser imediatamente executados. O Papa São Sisto II, São Lourenço e São Cipriano de Cartago estão entre eles (nada a ver com São Cipriano de Antioquia, o ex-feiticeiro convertido ao cristianismo, que é uma lenda ibérica do século 19). O número de mortos provavelmente foi menor que o da perseguição de Décio.
(3) [55] Entre 303 e 311 d.C., ocorreu a mais sangrenta, longa e ao mesmo tempo última perseguição aos cristãos no Império Romano, que custou a vida de algo entre 3000 e 5000 mártires. É provável que Porfírio tenha testemunhado o início desta perseguição. Ela foi iniciada pelo imperador Diocleciano e, após sua morte em 305 d.C., continuada por Galério (305-311 d.C.). A legislação persecutória de Diocleciano previa a destruição de igrejas, a aniquilação de escritos sagrados e objetos de culto, a proibição de reuniões e a perda de direitos civis para os cristãos.
E a gente faz um balanço: parte do problema de impérios antigos e reinos medievais posteriores foi sua inconstância. Essa inconstância está diretamente ligada à concentração excessiva de poder na mão de uma só pessoa: o Imperador fulano tinha raiva de cristãos? Em seguida vinha outro simpático à causa e com raiva de pagãos helenos, de forma que a vida coletiva era constantemente desestabilizada por conflitos de opinião. Muitos redundavam em matança, em paranoia generalizada. Aquele era um mundo que ainda se acostumava a ideia de que é possível viver respeitando a visão de mundo de gente diferente de você -- nosso mundo vive constantes dificuldades de fazê-lo também, e a solução para esse impasse nunca foi nomear esta ou aquela religião como credo oficial do Estado.
E tal instabilidade afetou a recepção das obras de Porfírio, diretamente. Um século dali, ele era visto como o mais infame crítico do cristianismo, seu inimigo número 1 e a voz por detrás da perseguição de Diocleciano -- o que nunca foi comprovado -- se o foi, foi só indiretamente. Seu livro não é uma incitação à violência; é o alerta a um perigo. O primeiro imperador defensores dos cristãos, Constantino, o Grande, em sua carta "Aos Bispos e ao Povo", coloca Porfírio ao lado do herege Ário e determina que os 'escritos ímpios' de Porfírio "sejam destruídos". [22] Após 448 d.C., porém, não há mais indícios de que cópias de Contra Christianos tenham sobrevivido em forma integral. Ele chega a nós em dezenas fragmentos que vem sendo reorganizados por especialistas em teologia e filólogos.
Este é o balanço da dimensão política da obra de Porfírio. Alguns de vocês talvez se interessem por sua argumentação teológica, e deixo um resumo dela aqui nesta segunda parte:
Ataque à Bíblia e aos métodos de interpretação cristãos.
Na maior parte dos fragmentos preservados, é patente que Porfírio possuía um conhecimento incomum dos textos sagrados neotestamentários e da Torá e, para um intelectual de educação grega. Já existia a percepção do cristianismo como uma religião pautada em um livro, mesmo antes da compilação definitiva do Novo Testamento no ano 410. Primeiro dado interessante pra nós. Assim, ele começou sua crítica analisando o conteúdo textual da Bíblia - por exemplo, sua coerência e a plausibilidade do relato que ela faz de eventos históricos.
O primeiro ponto a censurar era o nível inferior de escrita e a questionabilidade moral-teológica do conteúdo das narrativas do Pentateuco. Mas então ele chega no livro de Daniel -- esse livro foi supostamente escrito por um profeta do século 6 a.C., de incrível antiguidade, cheio de profecias que teriam se realizado durante todos aqueles anos até o governo de Antíoco IV (lá no século II). Ali há um episódio conhecido como a narrativa de Susana (ou Shoshanna; isto está no capítulo 13). Esse é o episódio que entrega que jamais o livro de Daniel poderia ter sido escrito em hebraico antigo do século 6, mas grego moderno do século 2, pelo menos. Eu resumo a história:
Diz-se que uma judia virtuosa e casada com um ricaço, Susana, estava peladona tomando banho no jardim de suas propriedades, e por trás da vegetação havia dois velhos espreitando sua nudez. Eles invadem o jardim e tentam forçá-la a ter relações sexuais com eles, ela se recusa, e nos dias seguintes é falsamente acusada de ter sido pega nua, no jardim, tendo relações com um amante junto a uma árvore. Eles inventam a história para punir Susana como adúltera (a punição para mulheres por adultério à época era a morte), e ela é levada às cortes como uma potencial criminosa.
Durante o julgamento, o jovem profeta Daniel intervém e resolve questionar cada velho babão separadamente. Quando questiona sob qual árvore teria ocorrido o suposto adultério, o primeiro velho diz: foi um lentisco (ὑπὸ σχῖνον, hupo schinon), e Daniel declara que um anjo o σχίσει (schisei - cortará) ao meio. O segundo afirma que foi ὑπὸ πρίνον (hupo prinon - sob um carvalho), e Daniel profetiza que um anjo o πρίσαι (prisai - serrará) ao meio. São dois trocadilhos meio desastrados no texto, que mostram a perspicácia de Daniel: ele já dava mostras de seu dom previdente e acesso a verdades que os homens não são capazes de enxergar, e isso meio que legitima seu status de profeta, de alguém que enxerga o futuro e as verdades do cosmos. Ele é dotado de pronoia, para falarmos o vocabulário do platonismo.
Porfírio achou isso muito estranho. A ideia da inteligência do profeta como uma pronoia platônica não pode ter vindo no século 6 AEC, antes de tudo -- isso é 2 séculos antes de Platão existir. No causo de Susana, a discrepância entre as árvores (σχῖνος e πρίνος) revela a mentira dos caras. São eles os indivíduos executados, e a virtude de Susana é assegurada. Ela vive feliz para sempre.
Através de estudo lexical, Porfírio observa que esse jogo de palavras com os nomes das árvores só seria possível na língua grega a ele moderna. Jamais no hebraico, língua para qual lentisco é בָּטְנָה (botnah), e carvalho é אַלּוֹן (allon). E ele começa a fazer uma análise lexical, concluindo que esta narrativa, assim como todo o livro de Daniel, teria que ter sido composto em grego. Ele não era um livro profético do século 6 a.C.; era um livro moderno que misturava relatos da revolta dos macabeus contados prospectivamente. Quando ele tenta ser profético, ele erra: diz que dado rei morreria na Palestina, enquanto ele morreu na Síria, por exemplo -- e teólogos cristãos, naquela época como hoje, não são exatamente dotados de um interesse pela coerência de seus textos.
Uma vez que conclui esse estudo, Porfírio volta a sua tese central: o cristianismo, como foi o judaísmo, é uma degradação da cultura letrada. Sua metafísica não se pauta em um estudo rigoroso da natureza do cósmos, mas em dogmas inventados, convenientes ao clero. Quando reconta historietas morais da tradição judaica, não há interesse nenhum em analisá-las, corrigi-las quando elas estiverem erradas. Para um platonista, ver grandes modelos de liderança como Moisés e Ló sendo retratados como pessoas cheias de vícios (o último deles se embriagou a ponto de trepar com as próprias filhas -- isso é Gênesis 19:33, e é asqueroso) -- ou ver as rixas entre o apóstolo Paulo e Pedro, disputando infantilmente cada qual pela melhor versão de igreja (veja Gálatas 2:11-14) -- ou o próprio Messias alertando os discípulos a ignorarem o sofrimento do corpo, mas quando chega na sua hora de sofrer na cruz, pedir para que o fardo do sofrimento lhe seja tirado (veja Lucas 22:42, Mateus 26:39 e Marcos 14:36). -- para um platonista, tudo isso é um sinal de fraqueza moral, de inconstância, sendo veiculado por personagens modelares de uma doutrina religiosa. Não era de se esperar que essa doutrina fosse gerar pessoas de caráter.
Aqui Porfírio está sendo um platonista de carteirinha. Os filósofos gregos também citavam a todo momento autoridades de sua cultura: Platão vive citando Hesíodo e Homero, que era autoridades da mitologia dos deuses gregos, mas não hesita para criticá-los quanto à imoralidade dos retratos de Zeus, Hera, Afrodite e companhia (a gente viu isso nos episódios sobre a República 1 e Íon de Platão): a ideia é que a filosofia serviria de comentário e corretivo da cultura herdada e compartilhada; ela visaria um aperfeiçoamento moral de sua comunidade, mesmo que fosse para ser pouco ortodoxa perante a autoridade do passado. Dos patriarcas, dos líderes religiosos. O cristianismo, segundo Orígenes, era o ponto de culminância da filosofia platônica e sabedoria judaica: era o momento em que a filosofia mais sofisticada da época viraria uma doutrina de salvação e permitiria à humanidade conhecer o verdadeiro Deus. E aqui Porfírio rebate: um texto tão mal compilado, tão moralmente questionável e tão contraditório não é digno de ser tomado como fonte de conhecimento sobre a natureza do divino.
E a partir daí, ele faz barba, bigode e cabelo: ele acusa o Deus bíblico de ter plantado a árvore do conhecimento do bem e do mal com uma má intenção, só para fatalmente criar sofrimento de suas próprias criaturas num jogo de vaidade cósmica em que ele acabaria como redentor -- redentor de perigos que ele mesmo criou. Se esse Deus fosse realmente 'manso e misericordioso', como pôde então enviar seu Filho à terra tão tardiamente, e simplesmente não se importar com a perdição de tantos povos pré-cristãos? Quando a vida de seu Filho na Terra foi registrada pelos evangelistas, como diabos ele permitiu a escrita dos quatro Evangelhos sinóticos -- repletos de contradições nas genealogias de Jesus (sobretudo entre Mateus e Lucas), mais divergências consideradas irreconciliáveis nas narrativas da infância de Jesus? A gravidade do argumento da contradição consiste em que, do ponto de vista platônico da veracidade de Deus, um livro não pode ser divinamente inspirado se contém contradições insolúveis.
No retrato de Porfírio, os patriarcas cristãos aparecem como o oposto dos filósofos 'verdadeiros' -- são mais parecidos como ilusionistas treinados em retórica, mas que mostram ser manipuladores e trapaceiros, que 'enfeitiçam' a razão de seus leitores com suas interpretações mirabolantes da Bíblia. Eles são ouvidos simplesmente porque seu público é ignorante o bastante para se dar conta disso.
Por fim, Jesus Cristo foi levado a Pôncio Pilates no ano de sua morte, na condição de um criminoso – como um criador de desordem pública. E Pilatos é a única pessoa educada, com treinamento filosófico e capacidade de rebater a sabedoria de Cristo em toda a narrativa evangelista. Nesse momento, em que não estava perante um público facilmente impressionável para passar sua mensagem de redenção, ele se cala. Para Porfírio esse é o maior momento de fragilidade de toda a narrativa cristã. Como Messias, Cristo teria poder de convencer Pilatos e facilitar a expansão de sua mensagem por todo o Império, se quisesse: era sua chance de brilhar. Mas ele abaixa a cabeça e aceita seu sacrífico aos prantos, depois de ter sido traído pelos seus seguidores Pedro e Judas, porque sabe que não poderia argumentar a partir da razão. A sua mensagem é a mensagem de um homem simples – de um guru messiânico como vários que transitavam pelas províncias marginais do Império Romano naquela época de crise espiritual. Pôncio Pilatos era um governante treinado em direito e filosofia – tradições argumentativas críticas, coletivamente construídas, pautadas no esforço conjuntos de homens e mulheres interessados não em uma mensagem de redenção instantânea ou no conforto emocional de seu público: filosofia era um veículo de racionalização de um mundo irracional, garantidora de estabilidade na vida pública, e do acordo entre o ser humano individual com a vida que lhe foi dada. Porfírio não entendia como seus contemporâneos não enxergavam a diferença abismal entre essas duas propostas.
Se eu fosse católico, eu iria achar ter acumulado uns 500 aninhos extra no Purgatório só por formular esses argumentos para vocês, mas ficamos por aqui. Eu estou recontando argumentos de um livro que li -- façam o que quiserem com eles. Vocês encontram este livro traduzido para espanhol, inglês, eu consultei a edição alemã já mencionada do Matthias Becker, mas nada de português.
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