Por F.V.Silva, 28/11/2025
"Mártir" é um termo derivado do grego antigo que significava simplesmente "testemunha". Inicialmente, no contexto do cristianismo primitivo, referia-se aos Apóstolos que foram martus, testemunhas oculares da vida, morte e ressurreição de Cristo (como descrito em Atos 1:8, 1:22 e 1 Pedro 5:1).
No século II para o III algo novo aconteceu. O termo ganhou um significado renovado, e essa ressignificação reflete um conflito entre os padres da Igreja e o poder do Império Romano. Nosso episódio será sobre isso; para resumir bem o sentido renovado do mártir, os discípulos de Cristo sob o governo de imperadores hostis à causa como Décio e Diocleciano seriam testemunham sob risco constante punição severa e morte. E foi assim que a palavra martus passou a designar alguém que insiste em afirmar sua fé mesmo quando enfrenta perigo de morte. Boa parte do que você encontra em teologia mesmo, acerca do conceito mais recente de martírio, é por conta dos Padres da Igreja pós-nicenos; na Bíblia em si, só o livro do Apocalipse (2:13, 6:9) traz o termo sugerindo esse significado, embora sua tradução para o português seja geralmente "testemunha".
Hoje fala-se de mártires de uma causa política, de uma ideia -- você pode ser mártir de qualquer coisa que não seja amplamente aceita quando julga que vale a pena se arriscar por ela. A gente vai chegar em todos esses pontos e retraçar a história de mais uma ideia derivada do período que estamos estudando nesta série: os séculos finais do Império Romano do Ocidente.
Para tanto vou pautar minha apresentação nos capítulos 2 e 3 do livro recente de Elizabeth Castelli, Martyrdom and Memory. (New York: Columbia University Press, 2004, p. 33-103). Sua tese diz que o martírio cristão foi uma forma de resistência cultural coordenada; a prática da Igreja Católica de listar e relembrar, a cada ano, a história dos mártires daqueles séculos II a IV, vai além de um ato de memorialística. Não se trata só de constatar que pessoas morreram pela causa da religião, mas de um artigo de teologia que explica como o cristianismo vingou e superou o paganismo como forma cultural.
Eu explico: o fenômeno do martírio cristão foi relativamente breve. Ele ocorreu em momentos pontuais dos séculos II ao IV, especialmente durante os governos de Décio (249--251) e Diocleciano (284--305), e para a nossa amiga Elizabeth Castelli não foi meramente um resultado passivo da perseguição imperial, mas consequência dela: martírio foi uma forma ativa e elaborada de resistência cultural. A elaboração consiste em uma espécie de teorização do valor da morte do mártir, e isso serviu como meio de não permitir que a morte de pessoas por religião fosse em vão, e pudesse se reverter em ganhos para a expansão da igreja, além de consequente perda de poder simbólico para os imperadores pagãos. Essa estratégia vingou: o sofrimento imposto pelo Estado virou o feitiço que se volta contra o feiticeiro. A igreja elevaria a morte pela causa cristã a um ato de agência espiritual -- quase como um privilégio de poder morrer pela causa --, instaurando uma teologia que colocava o mártir em posição espiritualmente acentuada. O mártir e o santo passaram a se mesclar em certo sentido.
Essa ideia não funcionaria sem um trabalho detido em criação de uma memória coletiva -- vamos considerar essa uma primeira grande inovação do Cristianismo pré-niceno. Religiões étnicas como judaísmo e helenismo estão pautadas em mitos criadores. O judaísmo vive falando das provações do povo judeu, essas provações correspondem muitas vezes a eventos históricos em que os judeus se safaram do domínio dos egípcios, dos babilônicos e tal, mas as provações só repetem o motivo eterno da Aliança entre o Deus de Israel com seu povo. Para a religião dos gregos, nem se fala: o espaço onde acontecem as coisas é o espaço do mito; a história da humanidade não interfere com a vida dos deuses. Agora pensemos no cristianismo, e a celebração do mártir como parte do calendário litúrgico:
"O trabalho de memória realizado pelos primeiros cristãos sobre a experiência histórica de perseguição e martírio foi uma forma de criação cultural", na qual a identidade cristã era "marcada indelevelmente pela memória coletivizada do sofrimento religioso dos outros" (p. 17).
Essa memória consistia em um produto da interação do indivíduo com seu grupo, que permitia às comunidades cristãs situarem-se no tempo e no espaço. Por onde quer que se olhasse, havia uma referência ao martírio incrustada nas igrejas e nos sermões dos padres: mártires eram Ágata da Sicília; Potinus de Lyon; Perpétua de Cartago, Justino Mártir da Judeia -- seria possível refazer o mapa conhecido do Império Romano como um mapa de perseguição de sua fé. Mesmo que isso não correspondesse a uma verdade; mesmo que não necessariamente cristãos estivessem sob ameaça em toda a parte. Mas através desse ato de recontar uma história -- via narrativa, performance ou liturgia -- a memória do martírio acumulava significados. Mencionar o mártir X ou Y verteu-se em uma forma de uso de um "passado utilizável" que sustentava a coesão do grupo e lhe dava sentido histórico -- aquela era uma luta entre forças espirituais (que suportariam o lado cristão) contra formas terrenas (onde o poder político do Império, os pagãos e os dêmonios se confundem). A Igreja fundou sua identidade, ao repetir a afirmação de sua missão na Terra como uma missão contra o poder político de um Império pagão -- sem especificar a que momento deste império estava se referindo. A dinâmica da luta valia para toda a história. Até que veio Constantino e a Igreja Católica virou uma religião lícita no império (embora não fosse a única religião válida; leia a documentação do Édito de Milão); até esse momento nada garantia que isso fosse acontecer.
Daí pensamos no outro lado da moeda: por que alguns imperadores perseguiram cristãos? Eu adiantei essa história no episódio anterior, sobre "Contra Christianos" de Porfírio, e o resumo aqui: três imperadores romanos exigirem sacrifícios aos deuses romanos para toda a população em certos momentos da história dos séculos II e III como prova de lealdade. Estamos falando de imperadores como Décio, que buscavam reafirmar a lealdade do povo e unidade imperial na marra. E os cristãos reinterpretaram essa demanda como uma afronta à sua liberdade de culto -- a tentativa do imperador saiu pela culatra.
Até aquele momento, sacrifício era uma prática universal de religiões mediterrâneas: o judaísmo e o mitraísmo praticavam sacrifícios com animais, e o próprio imperador pedia ocasionalmente sacrifícios para promover seu nome. E eis que cristãos tinham a primeira religião romana que revertia os sentidos da noção do sacrifício: o Messias era o substituto para todo o sacrifício de práticas pagãs antigas. Todo o sofrimento do mundo recai sobre ele na cruz segundo os relatos dos evangelhos: é como se a morte de Cristo tivesse ocorrido como evento cósmico paradigmático, tal qual o sacrífico que elimina a necessidade de todos os outros sacrifícios. O uso da cruz como simbologia dessa religião remete a isto: a ideia de que o sacrifício de cristo devia ser sempre lembrado. A olhos romanos, esse era um detalhe excêntrico daquela nova religião minoritária, mas foi esse o detalhe que levou alguns cristãos a recusarem realizar qualquer sacrifício que lhe requeriam -- para imperadores, para deuses do Olimpo, para quem quer que fosse.
Daí derivou um conflito entre duas concepções de justiça: na esfera romana, o sacrifício era o ato cívico e religioso por excelência, um ritual que sustentava a pax deorum (a paz entre o poder terreno e os deuses) e reforçava as hierarquias sociopolíticas. A recusa cristã de sacrificar foi vista, portanto, como um ato de traição à ordem cósmica, além de uma ofensa civil. Esses grupos eram grupos dominados pelo Império, habitantes de províncias colonizadas, então dá para imaginar como esse conflito facilmente redundou em violência.
E teólogos cristãos pré-nicenos que já vou mencionar desenvolveram uma contranarrativa poderosa em face a esse curto-circuito entre duas noções de sacrifício. Eles proclamaram todos os sacrifícios como práticas de idólatras. A ironia desse momento no século II reside no fato de que, ao se recusarem a ser os agentes do sacrifício (oferendo aos deuses romanos), os cristãos assumiram o papel de vítimas do sacrifício, oferecendo suas próprias vidas a seu Deus, à causa de seu Deus. Dessa forma, a linguagem sacrificial em voga foi apropriada para descrever o martírio, transformando a execução brutal em um ato litúrgico onde o fiel imitava Cristo, como uma oferta agradável ao divino. Em outras palavras: eles não seriam mais vítimas passivas do poder político violento dos pagãos, mas participantes ativos na disseminação de valores culturais que queriam ver num mundo homogeneamente cristão. Neste sentido, o estratagema dos padres da igreja dessa época deu certo: no século IV, o Império Romano de Constantino de fato virou um Império em que o cristianismo se tornava uma das muitas religiões lícitas, e isso significou antes de tudo: cristãos estavam desobrigados de participar de ritos dos outros. Eles sequer precisavam sacrificar para os imperadores. Reinos europeus ao longo da Idade Média propagaram essa mesma identidade.
Eu falei de resistência cultural, e uma forma útil de entender essa resistência é como uma disputa por narrativas. Como você vai interpretar e forçar uma interpretação sobre o caráter do poder político. Assim, por um lado, a versão das autoridades romanas sobre o conflito com cristãos dizia: a recusa cristã é uma forma de impiedade e deslealdade espalhada por povos conquistados e revoltos. O que o poder imperial faz com populações revoltosas? Aplica violência sobre elas, aciona o poder de polícia.
Contraste com a interpretação cristã: seus líderes espirituais retrataram a perseguição como prova da ilegitimidade e "ilegalidade" do poder estabelecido, cujos dias estavam contados uma vez que o plano divino se realizasse. Não havia exatamente um fundamento legal preciso para processar os cristãos (i.e. ninguém nunca foi preso por cometer o crime de ser cristão, porque esse crime não existia nos códigos legislativos do Império e suas províncias). O crime pelo qual alguns caíam era geralmente insubordinação, falta de respeito com autoridades, ateísmo, e as penas eram definidas de acordo com a posição social do réu. Mas nas mãos dos autores cristãos, essa falta de base legal foi usada como evidência da imoralidade do poder político instituído. Aquela era uma perseguição velada, uma conspiração das forças do mal. Eles estão nos punindo por ser cristãos, sem que isso seja um crime de fato -- eis a ideia que começou a veicular, e os próprios imperadores passaram a ser vistos como indivíduos agindo na ilegalidade, e contra qualquer cultura jurídica digna de seu nome.
A lei e a ilegalidade, assim, viraram uma questão de interpretação. E a cultura do mártir é também isto: uma narrativa. Como narrativa, nela se constrói uma personagem do mártir; os eventos de sua vida darão suporte à ideia de que ele ou ela foi um bom cristão, espalhando o bem no mundo com a firme consciência de que viver era caminhar para a pira sacrificial, onde de fato encontraria sua paz. Com sua morte, ele seria erguido aos céus para receber sua recompensa. Ao reinterpretar o sofrimento como salvação (como uma verdadeira 'promoção' no plano espiritual), teólogos cristãos interromperam o circuito de poder criado pelas estruturas judiciais romanas e articularam uma teoria concorrente de poder. Aquela foi uma ideia poderosíssima.
Chegou um momento em que um oficial romano apertou comunidades cristãs a cooperarem e obedecer ao édito do imperador. Esse é Máximo, no relato do mártir Júlio, o Veterano (celebrado no calendário ortodoxo em 27 de maio). Eu leio a descrição de sua história no site romeno Basilica.ro:
Ele alcançou o martírio durante a Grande Perseguição sob os imperadores Diocleciano e Maximiano. No ano de 304, foi levado a julgamento perante o prefeito local, chamado Máximo. O prefeito Máximo foi informado de que um soldado veterano, Júlio, não queria sacrificar aos deuses pagãos.
O prefeito tentou persuadir o veterano a sacrificar aos deuses, prometendo-lhe uma recompensa substancial. O veterano Júlio recusou-se categoricamente a renunciar à sua fé em Cristo por dinheiro. O santo disse ao oficial que estava pronto para morrer por Cristo em vez de obedecer às leis pagãs que exigiam sacrifícios a falsos deuses.
Vendo sua coragem e fé inabalável, o prefeito mandou decapitá-lo. São Júlio, o Veterano, recebeu assim a coroa do martírio em 27 de maio de 304. (https://basilica.ro/en/orthodox-calendar-may-27/)
Em outras palavras, o oficial explicou que não custaria nada ceder às ordens imperiais e que até recompensaria o militar por ajudar a estabelecer a ordem. Ele não deixaria de ser cristão por ceder aos desejos do imperador por um dia só. Em outra fonte, a conversa entre os dois termina em uma tirada, uma reapropriação de termos, e isso virou uma constante na narrativa martiriológica. Eu o cito, "Máximo disse que se houvesse cooperação, ele esqueceria todas as ofensas; concederia "perdão perpétuo" ao líder Júlio "por sofrer pelas leis da pátria". Esse mártir respondeu que sofreria, sim, mas "pelas leis divinas", do verdadeiro Deus de Israel.
Pois é, com este e outros exemplos de narrativa circulando por meios cristãos, em dado momento do século III, algumas pessoas começaram a usar a chance de morrer pela causa como uma honra concedida por deus. Chegaram a exacerbar situações que poderiam ter sido resolvidas sem muitos problemas junto às autoridades, para insistir que, naquela batalha espiritual, o cristão estava disposto a apostar todas suas fichas, e o faria com a constância moral de um filósofo estóico.
Eu vou ter que citar mais um relato de martírio para tudo isso fazer sentido.
Vamos considerar o caso do bispo Inácio de Antioquia. Ele atuou como bispo dessa que era uma paróquia na província da Síria, se negou a cumprir as exigências do imperador Flaviano ou Trajano (as fontes se contradizem aqui) e, contra a prática da época, não foi punido localmente: ele foi levado a Roma por vários dias numa carruagem. Nessa carruagem, sabendo qual seria seu destino, ele escreveu A Carta aos Romanos: esse virou um texto modelar na tradição martirológica por ser um relato dos últimos dias de uma liderança da igreja, mesclada a reflexões sobre o sentido da vida terrena, sua insignificância em comparação com a vida nos céus. Como pessoa do alto clero e cidadão romano, ele poderia ter apelado para o Imperador e ter tido uma pena digno de sua casta (geralmente ela era decapitação), mas não: ele insistiu em jogar o jogo do imperador, e foi levado como vítima do Coliseu em Roma, segundo Eusébio de Cesareia, para ser destroçado por leões num espetáculo público. Essa era a pena a criminosos violentos da plebe.
A Carta aos Romanos é uma súplica para que não o salvem da morte. Dela vem um trecho célebre em meios católicos:
Escrevo a todas as assembleias e as instruo a todas para dizer que morrerei voluntariamente em nome do Deus uno, e o farei caso não o impeçam a qualquer momento. Exorto que não me concedam uma "boa vontade inoportuna". Deixem-me ir para ser alimentado por feras, por meio das quais há a possibilidade de eu alcançar o Deus uno. Sou o grão de um deus; e estou sendo moído pelos dentes das feras, para que eu possa ser encontrado como pão puro do Ungido. [...] Então serei verdadeiramente um aprendiz de Jesus, o Ungido, quando o mundo sequer poder vislumbrar meu corpo. Intercedam junto ao Ungido por mim, para que, por meio destes instrumentos, eu possa ser encontrado [como um sacrifício] a Deus.
I am writing to all the assemblies, and I am instructing them all, that I am dying-off voluntarily in-behalf of a god, if-only-at-any-time you might not prevent it. I am exhorting you: May you not become 'an unseasonable goodwill' to me. Let me go to be feed of beasts, through whom there is a possibility for me to attain a god. I am grain of a god; and I am being ground by teeth of beasts, in order that I might be found as clean bread of the Anointed-One. [...]Then I will truly be a learner of Jesus the Anointed-One, when the world will not-even see for itself my body. Entreat the Anointed-One in-behalf of me, in order that, through these implements, I might be found to be a sacrifice to God. (https://www.biblicalaudio.com/text/ignatios_romans.pdf)
Por meio dessa linguagem repleta de metáforas de transformação --- "grão de Deus" moído que se torna "pão puro de Cristo" ---, Inácio aponta para uma forma de renúncia total. O seu objetivo declarado é a obliteração do corpo físico, que ele despreza e cada vez mais constata ser desprezível, para que, sem qualquer vestígio material, ele possa se tornar uma só parte com o divino. Soa como uma mescla de gnosticismo e neoplatonismo, não? Muito do cristianismo do século III é assim, a gente adiantou isso. Nos escritos martirológicos, a escrita do futuro mártir não é só uma introspecção, mas uma ferramenta para assegurar que a sua passagem do mundo material para o espiritual seja compreendida e lembrada de modo adequado à causa religiosa.
Há mais dados sobre o martírio, que já deixei no episódio anterior com maiores detalhes: perseguições a cristãos aconteceram sob Nero; mas nos séculos II e III o termo 'perseguição' é algo meio forte. Não se saía com uma armada arrombando portas e levando cristãos para ser comidos por leões. Havia, sim, ordens imperiais eventuais exigindo de toda a população sacrifícios e reverências → as autoridades cristãs às vezes não as cumpriam (a maioria as cumpria, isso é importante ressaltar) → isso virava uma discussão jurídica → quando cristãos se mostraram intransigentes, eram mortos e feitos de exemplo. Essa ideia de cristãos sendo levados aos montes a Roma para ser devorados por leões é algo de Hollywood; Eusébio de Cesareia tem parte de culpa nisso; quem morria por sua fé, morria nas províncias, na hora. E isso não é minimizar o martírio: nenhum ser humano deve perder sua vida por escolher crer em uma religião, é claro. Isso é bestial, mas é patente que historiadores eclesiásticos exageram, e muito, os números dos mártires e o nível da perseguição, perseguindo objetivos da Igreja.
Eusébio de Cesareia escreveu uma importante História da Igreja, e é o primeiro a relatar o caso de Inácio de Antioquia. Ele coloca a execução dele no reino de Trajano (anos 98-117), o que dificilmente é o caso. Existia uma tendência de preencher toda a história romana com momentos de martírio, como se essa fosse uma constante: todo imperador pagão vai assassinar cristãos impunemente, porque este é o caráter de nosso mundo até a vinda de Cristo etc etc -- e historiadores eclesiásticos falsificaram dados deliberadamente para construir essa narrativa.
Houve uma exceção: a infame Grande Perseguição dos anos 303-311, sob o imperador Diocleciano. Ela consistiu numa série de quatro éditos que levou ao aprisionamento de todos os bispos, padres e diáconos que não cooperassem. Levou a repercussões graves para a comunidade em que esses líderes atuavam, com queima de textos religiosos, demolição de igrejas, e sacrifício forçado em massa aos deuses helênicos. Roma estavam em estado de comoção civil, e isso não é desculpa nenhuma: aquele foi um evento vergonhoso. A maior parte dos cristãos cedeu às exigências de Diocleciano e foi deixada para viver suas vidas. Mas os efeitos psicológicos dessa perseguição foram marcantes e determinantes para a 'legalização' do cristianismo em governos posteriores: há uma ligação direta entre a Grande Perseguição (303-311) e o Édito de Milão de 313. O Império reconheceu que exagerou.
A Historiografia moderna estima que entre 3000 e 5000 pessoas foram assassinadas num período de oito anos, com um número bem maior de torturados. Historiadores eclesiásticos inflam esse número, e o fazem deliberadamente: Lactâncio afirma categoricamente que "não sobrou um só para louvar a deus" na região da Nicomédia -- ele diz isso como suposta testemunha ocular, e ele sobrou (ele afirma em outro canto que se converteu em 303 e foi demitido de suas funções por deixar isso claro aos seus superiores). E vários outros sobraram. Comparação de números de cristãos nas províncias antes da Grande Perseguição e 50 anos mais tarde contradiz seus números: não seria possível que cristãos tivessem se reproduzir 100 vezes nesse período de tempo.
Daí temos Eusébio de Cesareia, que escreveu Mártires da Palestina, e é mais comedido ao falar do número de mortes por dia: "às vezes 10, 20, 30, certa vez quase 60, e então, em outras ocasiões, 100 homens" em um único dia. Ele não confere números gerais, e acho que era difícil contabilizar coisas do tipo no calor da batalha -- nem os governos locais deixaram números oficiais.
Em suma, a batalha por significados marca uma das grandes vitórias discursivas para os cristãos do século III. Morrer pela causa tornou-se uma insígnia de honra espiritual. Ao fazê-lo, eles não só resistiam ao poder terreno, mas o subvertiam, interrompendo o circuito que a punição espetacular tentava estabelecer. O terror da perseguição ficou, mas só para confirmar, na mente de seus correligionários, que a narrativa da batalha espiritual estava correta.
E a lógica do martírio não terminou com o Império Romano. A capacidade da memória coletiva de "colapsar o tempo" é evidente em movimentos políticos revolucionários hoje, e curiosamente volta em casos criminais como o tiroteio em escola em Columbine, nos EUA. Nessa ocasião a morte de uma garota cristã, Cassie Bernall, foi interpretada como um martírio cristão: sua história de vida virou livro, e mesmo que cristãos sejam maioria esmagadora nos Estados Unidos da América, fica a ideia de que a ameaça externa é latente. Ela espreita nos assassinos seriais, na pornografia, nas ideologias seculares, e vez e outra fará uma vítima inocente. Essa "memória do sofrimento se tornou um recurso para a criação cultural e a formação de identidade em contextos diversos" -- e essa é uma herança da cultura do declínio do Império Romano do Ocidente o século III. Mais uma das várias que estou tentando apresentar nessa série: a gente entende melhor nossa sociedade quando pensa o martírio não apenas uma ação enlouquecida, mas um fenômeno que "exige público, recontagem, interpretação e atividade de criação de mundos e significados" -- e, para bem ou para mal, funciona justamente por isso.
Referências
- Arnold, B.J. Justification in the Second Century. Göttingen: De Gruyter, 2017. (Studies of the Bible and Its Reception)
- Castelli, Elizabeth. Martyrdom and Memory: Early Christian Culture Making. New York: Columbia University Press, 2004.
- Hassett, M. "Martyr". The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company, 1910. Acesso em: http://www.newadvent.org/cathen/09736b.htm
- Ignatius of Antioch. Letter from Ignatious to the Romans. Acesso em: https://www.biblicalaudio.com/text/ignatios_romans.pdf.